

 Eu sei que vou te amar
Laurey Bright
  The Wedding Ultimatum



Digitalizao e correo: Nina

O homem que ela no podia ter...


rf de pai, tudo que Jenna Harper queria era ter uma famlia e casar-se com Dean, seu amigo de infncia. 

No entanto, seus sonhos se despedaaram quando Dean, depois de passar quatro anos fora, voltou para casa noivo de outra! 

At que o irmo mais velho de Dean, o taciturno e reservado Marcus Crossan, fez a Jenna uma proposta inesperada: que ela se casasse com ele! 

Atnita, Jenna relutou em aceitar, mas Marcus convenceu-a com beijos apaixonados, que a deixaram sem flego e ansiosa para ser sua esposa... 

Depois de casada, a inexperiente Jenna viu-se num mundo novo de emoes. 

Marcus lhe despertava um desejo intenso, fantasias sensuais que a levavam a ansiar por ouvi-lo sussurrar palavras de amor...

 At que, subitamente, Dean voltou a ficar livre...

CAPTULO I

Ansiosamente, Jenna Harper assistia ao desembarque dos passageiros do vo Los Angeles- Auckland. Mochileiros de jeans e botas, executivos de terno e gravata, pais 
com crianas sonolentas, um casal de meia-idade cujos netos avanaram para saud-los.
  Entre aqueles que aguardavam no saguo, nativos com camisas floridas e uma indiana vestida tipicamente, num colorido que animava o ambiente.
  A melhor amiga de Jenna, Katie Crossan, mexia-se impaciente a seu lado. A irm de Katie, Jane, embalava a filha caula no colo enquanto o marido tentava distrair 
as outras duas crianas, que comeavam a ficar indceis.
- Quando tio Dean vai chegar? - indagou a caula, de quatro anos.
- Logo - assegurou Jane.
  A famlia Crossan comparecera em peso para recepcionar Dean. At Marcus, o irmo mais velho.
  Jenna imaginou se Marcus teria ido se Katie no houvesse implorado uma carona at o aeroporto em Mangere.
  Marcus permanecia um pouco afastado do resto do grupo, o mais alto de todos, incluindo seu pai. Penteava os cabelos castanho-es-curos sem muito cuidado para longe 
do rosto anguloso, que aparentava inteligncia. Mantinha as mos nos bolsos da cala acinzentada em par com uma camisa creme.
  Marcus voltou levemente o rosto e percebeu Jenna fitando-o. Ergueu o sobrolho e, ento, um canto do lbio, os olhos cinzentos perspicazes.
  Jenna sorriu sem jeito, enganchou uma mecha dos cabelos castanho-claros na orelha e se concentrou na segunda leva de viajantes que chegava  Nova Zelndia.
  Marcus era mais velho do que Katie e Dean, os gmeos nasci quando ele tinha quase seis anos e Jane, cinco.
  Katie e Jenna concordavam em que, embora sentissem muito a falta de Dean, a bolsa que ele ganhara para estudar nos Estados Unidos por quatro anos lhe dera a chance 
de afastar-se da sombra do formidvel Marcus. Mas a espera fora difcil.
Marcus o viu primeiro.
-        A vem ele!
  Katie destacou-se do grupo e gritou o nome do irmo antes de se atirar a seu pescoo. Dean suspendeu a rodopiou com a irm gmea.
  As crianas, de repente tmidas, agarraram-se  me, impedindo-a, e ao marido, de se aproximarem.
  Jenna no evitou o sorriso de pura alegria. Sentia-se borbulhar como champanhe, mas forou-se a esperar. Assim que as saudaes familiares terminassem, Dean notaria 
sua presena. Por ora, ficava feliz s em observ-lo.
  Dean no era to alto quanto o irmo, mas os cabelos eram quase da mesma cor, e tinham um ondulado bonito. O rosto era regular e os olhos, de um azul translcido. 
Parecia um astro de cinema. Cercado pela famlia, expressava todo o seu afeto, o que, para Jenna, o deixava ainda mais bonito.
  O sr. Crossan abraou rapidamente o filho, a sra. Crossan enxugou uma lgrima api beij-lo, trs crianas escondiam-se atrs de Jane enquanto ela beijava o irmo 
caula no rosto, e seu marido dava um tapa camarada no ombro do cunhado.
  Jenna j dera um passo quando notou uma loira alta e bronzeada pouco atrs de Dean. Imaginara que fosse outra passageira, aguardando pacientemente que o grupo 
lhe desse passagem, mas ela agora se punha ao lado de Dean. Inacreditavelmente, ele pousou o brao nos ombros dela.
  Era como um filme em cmera lenta. Jenna sentiu a boca seca, o sangue congelado. Perigava sufocar, imvel, em meio  comoo da famlia Crossan.
Dean sorriu para a moa que ningum conhecia e anunciou:
-        Esta  Callie... e ns vamos nos casar.

CAPITULO II

O mundo parou para Jenna, embora a seu redor as pessoas circulassem, chamassem umas s outras, se abraassem e se beijassem, ajudassem a empurrar os carrinhos com 
bagagem.
  A famlia entrou em polvorosa. Katie gritou e esmurrou Dean no peito.
-No nos contou nada!
  A me abraou Dean novamente, sorriu para a futura nora e a beijou no rosto. O pai tambm cumprimentou a moa e ento ao filho.
  Para Jenna, o mundo se tornara cinza, os sons chegavam abafados. Dean sequer notara sua presena. Estava atnita.
  Finalmente, sentiu um aperto no brao, to forte que chegava a doer, mas no fundo agradeceu, porque a convencia de que ainda podia sentir. Marcus sussurrou-lhe 
ao ouvido:
-        Quer que eu a tire daqui?
Sim, pensou ela, mas declarou o oposto:
  -        No. Claro que no. Voc... no cumprimentou seu irmo ainda.
  Marcus parecia sombrio, nada amistoso em relao ao irmo recm-chegado.
-Nem voc - observou. - Est disposta a isso?
  Jenna sentiu grande constrangimento e pnico. Talvez fosse passar mal. Temendo abrir a boca novamente, apenas assentiu.
  -        Parece que vai desmaiar a qualquer instante - advertiu Marcus.
Jenna cerrou os dentes e forou-se a responder:
  -        No vou. - Prendeu a respirao na esperana de imprimir cor nas faces.
  O grupo ao redor de Dean aproximava-se. Marcus no soltou Jenna quando Dean os viu e acenou, abandonando o carrinho.
  Jenna esboou um sorriso e forou-se a respirar novamente. Marcus j estendia a mo livre para o irmo, ganhando mais algum tempo para ela.
  -        Oi, Dean - cumprimentou, sem grande emoo. - Parabns & bem-vindo ao lar.
  -- Obrigado. - Dean deu-lhe um tapa amigvel no ombro - Voc no mudou nada, Marc...
  De trs dele, Katie olhava ansiosa para Jenna. Finalmente Dean reconheceu aquela que no era da famlia.
-Oi, Jen! Que gentileza vir a esta hora da manh. Como est? 
Me a abraou, sem reparar que ela mantinha os braos ao longo do corpo.
-Precisa conhecer Callie... 
Sem dvida.
  Jenna recuou e quase colidiu com Marcus, o ombro contra o trax amplo, mas ele nem se moveu. Sentiu-se escorada pela massa solida que era aquele homem.
  Estampou um sorriso cordial no rosto ao se dirigir quela que lhe roubara Dean.        
-        Prazer em conhec-la.
  -        Igualmente. - Cllie tinha um sotaque americano e sorriso genuno. - Ouvi falar muito de voc.
  Como?, pensou Jenna, frentica. O que Dean podia ter falado a seu respeito? Que era estupidamente apaixonada por ele desde a inancia? Que imaginava que fossem 
se casar quando ele voltasse? Que se considerava a pessoa mais chegada a ele no mundo, depois da mae e da irm?
  -        A melhor amiga de Katie - recordou Callie. - E colega de apartamento, certo?
  -- E - murmurou Jenna. Queria gritar, chorar... fugir. Mas o orgulho a mantinha composta, sorridente.
  -        E voc deve ser Marcus - arriscou Callie. - O irmo mais velho. - Avaliou-o abertamente e pareceu aprovar. - Ele me contou tudo sobre a famlia.
- Mas ele no nos contou nada sobre voc - rebateu Marcus Callie riu.
- Acho que queria fazer surpresa.
  -        Foi uma surpresa e tanto. - Marcus fez pausa. - Das mais agradveis, claro. Espero que goste da Nova Zelndia.
  -        Estou ansiosa para ver tudo, e quero conhecer a todos tam bm. Incluindo Jenna, claro.
  O complemento em tom gentil apenas destacara o fato de Jenna no pertencer  famlia.
  Os filhos de Jane subiram no carrinho, e uma das bolsas caiu. Callie foi ajudar a reorganizar a bagagem, e Jenna viu a oportunidade de fugir.
Mas Marcus estava no caminho e a segurou pelo brao.
-Espere - ordenou.
  Incapaz de impor sua vontade, Jenna permaneceu imvel enquanto ele trocava algumas palavras com os pais e Katie, que parecia preocupada com ela. Ento, Marcus 
voltou para junto dela e a tomou pelo cotovelo.
-Vamos.
  Ela no perguntou para onde iam, profundamente aliviada por sair daquele pesadelo.
- E Katie? - indagou, lembrando-se da amiga enquanto atravessavam o imenso saguo do aeroporto.
- H espao para ela no carro de meu pai, e ela no quer se separar de Dean. Isso  algo com que Callie ter de se acostumar... a proximidade dos gmeos.
  E, claro, com Callie no banco traseiro, no sobraria espao para Jenna, aquela que no era da famlia.
  Os pais de Dean esperavam que ele ficasse em casa, distante meia hora de Auckland, at se instalar. Certamente, no imaginaram que fosse aparecer com uma noiva, 
mas no teriam dificuldade em hosped-la confortavelmente na casa enorme em que haviam criado a famlia... a casa que Jenna conhecia quase to bem quanto a sua, 
bem menor, que dividia com a me na vizinhana.
  Jenna inspirou o ar mais fresco do estacionamento. O cu cinzento comeava a ficar azul,  medida que as nuvens se deixavam arrastar pelo vento.
  Marcus abriu a porta do passageiro de seu automvel de luxo e ajudou Jenna a se acomodar. No disse nada at se afastarem do complexo aeroporturio. Percorreram 
uma rea de mata preservada  ento comearem a ver construes novamente.
- Eu disse a meus pais que iria para casa depois. J tomou o caf da manh?
- Caf da manh? - Jenna ainda no conseguia raciocinar.
- Comeu algo? A maioria das pessoas se alimenta logo cedo.
- No. - Ela e Katie tinham acordado excitadas demais para tomar o desjejum to cedo.
- Nem eu - declarou Marcus. - Vamos parar no caminho. 
Jenna no discutiu, embora no sentisse fome. A exemplo aos irmos mais novos dele, acostumara-se a obedec-lo.
  J dentro dos limites da cidade, Marcus parou num restaurante, e pediram suco de laranja, torradas e panquecas. Ele obrigou Jenna a tomar um caf bem forte, quente 
e com acar.
  -        Assim est melhor - satisfez-se ele, depois que ela consumiu duas torradas, alm da bebida. - Parece humana novamente.
- Nunca estou cem por cento logo cedo -justificou ela, aptica.
Marcus compadeceu-se.
- Lamento muito, Jenna.
Ela olhava fixamente para o saleiro na mesa.
- Obrigada... pelo caf da manh. - E por me salvar. Por impedir que eu fizesse papel de idiota na frente de todos. - Vou pagar a minha parte.
- No seja tola. - Marcus a impediu de abrir a bolsa. - Eu pago. - Determinado, sacou a carteira.
- Talvez eu deva voltar para casa... - considerou Jenna, j no carro.
  Katie imaginara que ela passaria o fim de semana com os Cros-san. Considerara um golpe de sorte a chegada do irmo no sbado logo cedo, de modo a ningum ter de 
pedir dispensa no trabalho.
  Jenna tambm nutrira'a expectativa, mas agora desejava poder usar a desculpa do trabalho para no comparecer  festa de recepo.
-        No veio para passar o fim de semana? - questionou Marcus.
- Tudo mudou. Noivado  s para a famlia. E eu no sou famlia.
Marcus deu de ombros.
- Quer que nos sintamos culpados?
- No! Ns... vocs todos estavam ansiosos pela volta de Dean. Quero que fiquem felizes por ele e... e Callie.
- Muito nobre - desdenhou Marcus. - Como se no tivesse quase morrido junto quele porto de desembarque e vindo embora sem se despedir de ningum.
Jenna suspirou.
- No devem ter sentido a minha falta.
- Em algum momento, vo se indagar onde estar voc - replicou Marcus, duro. - Se  o que quer, posso levar voc para a sua casa e dizer  famlia que no estava 
se sentindo bem...
  Todos saberiam que seu nico grande mal era corao despedaado, no? Mas havia a possibilidade de Katie acreditar que ela estivesse mesmo doente, o que a impediria 
de comemorar a volta e o noivado do irmo despreocupadamente.
  Jenna mordiscou o lbio, indecisa.
- Sua famlia inteira deve estar com pena de mim.
- Katie, talvez. Se contou a ela o que sente.
Jenna meneou a cabea.
  -        Na verdade, no. Quero dizer... no com tantas palavras. - Imaginava que a amiga soubesse... assim como Dean. Mas enganara-se redondamente. - Pensei que 
todos soubessem. - Voltou o rosto para Marcus. - Voc sabia.
Ele sorriu.
  -        Acho que meus pais ainda no perceberam que os gmeos e voc j cresceram. Nunca levaram a srio seu fascnio por Dean. E Jane andou ocupada com a prpria 
famlia nesses ltimos anos. Imagino que no tenha trocado cartas de amor com meu irmozinho...
  Ela sempre conclua as missivas do mesmo jeito: "Com amor, Jenna". Dean retribua o carinho quando escrevia, em cartas sempre endereadas a ela e  irm em conjunto. 
Quando ele telefonava, a conversa tambm era a trs, de modo que nunca houvera chance de confidncias.
  Jenna nunca se importara em partilhar, grata por Katie tambm no se importar. Os gmeos, mesmo no sendo idnticos, tinham uma ligao especial. Ela entendia. 
Callie entenderia tambm?
-        No eram cartas de amor, propriamente.
  Aps tanto tempo de convvio, era como se ela e Dean no precisassem expressar os sentimentos com palavras extravagantes. Teria sido at embaraoso.
  -        Dean no costuma ser cruel - observou Marcus. - Mas no  nada sensvel no que se refere a sentimentos. Provavelmente, voc nunca reparou... pelo fato 
de terem crescido juntos. Mas ele no  capaz de enxergar o que est um palmo adiante do nariz.
  Supondo que Marcus estivesse certo, seu afastamento s reforaria a suspeita de todos... incluindo Dean, e Callie, de que ela alimentara sonhos em relao ao amigo 
de infncia e sofrera uma terrvel decepo. No toleraria ser objeto de piedade.
  -        Como andam seus dotes de interpretao? Voc costumava ser boa atriz quando criana. Principalmente quando o objetivo era salvar a pele de Dean...
  Marcus sempre soubera dos seus subterfgios em benefcio de Dean. Assim como percebera seu mal-estar no aeroporto e agira rpido para evitar um constrangimento 
maior.
Como ela no respondia, Marcus completou:
  -        A escolha  sua, mas, se vier comigo, prometo que tornarei a situao o mais suportvel possvel... e sairemos cedo.
  Jenna respirou fundo.
-        Eu vou.
  Ento, Marcus a olhou de um modo que ela no soube interpretar. Observando-a com os lbios comprimidos, ele lhe acariciou a mo antes de dar partida no carro.
  Seria to ruim quanto ela imaginara.
  Marcus estacionou na rua, diante da casa antiga com janelas amplas que fora repintada para recepcionarem Dean. Um doce aroma de lavanda permeava o ar, exalado 
por vasinhos com flores cor-de-rosa nos degraus da varanda. A porta da frente estava aberta, e percorreram o vestbulo.
  Encontraram os adultos na sala de estar, saboreando ch e caf. As crianas corriam entre as cadeiras, brincando de pega-pega, entrando e saindo pelas janelas 
francesas que se abriam para o ptio arborizado e a piscina com deque.
  Marcus explicou que haviam parado no caminho para tomar o desjejum, para o qual no tinham tido tempo, com o vo de Dean chegando to cedo.
- Podiam ter tomado o caf da manh aqui - repreendeu a me.
- No aguentei de fome. - Marcus sorriu. - E Jenna estava precisando de um caf. ,.
A sra. Crossan fitou-a com simpatia.
- Voc est mesmo um pouco plida... - Em voz baixa, indagou: - No est triste com o noivado de Dean, est, querida?
- Claro que no - mentiu Jenna, forte. - Callie  muito bonita, e Dean parece to feliz...
- Bem, sim. - A sra. Crossan olhou para o novo casal. - Eles parecem apaixonados.
  Callie j tomara um banho rpido e agora, refrescada, estava ainda mais bela do que no aeroporto. Dean s desviara o olhar da noiva ao acenar para o irmo e saudar 
Jenna:
-        Oi, de novo!
  Jenna concluiu que devia estar aliviada por ele estar ofuscado a ponto de quase no v-la, mas em vez disso experimentou um cime to forte e doloroso que teve 
de cerrar o punho para aplacar a dor.
Marcus tomou-lhe a mo.
  -        Ainda tem caf? - indagou, a ningum em particular. - Vamos pegar uma xcara, Jenna. - Conduziu-a para a enorme cozinha ensolarada.
- Acabamos de tomar caf - resmungou ela.
Marcus foi at a cafeteira no canto do balco.
- Vamos tomar mais. Ou quer algo mais forte?
Jenna meneou a cabea. Precisava manter-se lcida.
- Que ideia...
  Ele desenganchou duas canecas penduradas no armrio e as encheu com a rica bebida negra, acrescentando acar. Entregou uma para Jenna.
  Naquele instante, Katie apareceu com uma pilha de xcaras e pires.
-        Voc est bem, Jen?
Ela fingiu surpresa e procurou se exprimir animada:
  -        Estou tima. E voc, satisfeita por ter seu gmeo de volta? No responda. Que pergunta tola!
Katie sorriu, demonstrando a felicidade.
- Nunca imaginei que fosse sentir tanto a falta dele... - De repente, ficou sria. - Mas Callie foi uma surpresa e tanto. Ele... no tinha falado nada sobre ela, 
tinha?
- Nadinha. - Jenna fez um gesto indefeso. - Se tivesse contado a algum, teria sido a voc, claro.
Marcus interveio:
- Um romance-relmpago? Se nem voc sabia de nada, Katie...
- Ele falou dela algumas vezes, mas nunca imaginei que fosse algum especial, e fazia algum tempo que no comentava... - rememorou Katie. - Antes, tinha dito que 
temia que ela recusasse a proposta, e no queria voltar com todos sabendo que estava sofrendo. Callie s concordou em vir para a Nova Zelndia com ele h algumas 
semanas, e ele decidiu manter tudo em segredo at chegarem aqui. Quis fazer surpresa.
Felizmente, ele nem notara seu espanto, pensou Jenna. Segurou a caneca com fora, ignorando o desconforto. Katie acrescentou, pensativa:
  -        Desconfio de que ele temia que ela mudasse de ideia antes de embarcar.
Jenna forou um sorriso.
- Bem, foi uma bela surpresa, no foi?
- Acho que sim. Tem certeza de que est tudo bem com voc, Jen? - Katie continuava desconfiada.
Jenna sorriu terna.
- Claro. Dean est feliz. E eu estou feliz por ele.
- Pensei que vocs ficariam juntos - confessou Katie.
do crianas, voc j dizia que ia se casar com ele.
  A gargalhada de Jenna valeria um prmio da academia de cinema de Hollywood.
- Ora, tnhamos o qu Oito anos? Katie!
- s vezes, quando estvamos mais crescidos, vocs pareciam mais do que amigos...
  E eram. Trocavam beijos de vez em quando. Imaginara, como Katie, que Dean preferisse manter o relacionamento a nvel de amizade durante a adolescncia, sem pensar 
em compromisso, quanto mais em casamento.
  Formaram-se na universidade, e ento Dean ganhara a bolsa para estudar nos Estados Unidos. Ele hesitara, apreensivo quanto a passar tanto tempo sozinho longe de 
casa, mas ela controlara o pnico e o incentivara a aproveitar aquela oportunidade nica de ampliar os horizontes e enriquecer o currculo.
  O beijo que ele lhe deu naquele momento decisivo no foi nada fraternal, e Jenna o interpretara como uma promessa, o selo de um compromisso tcito. Partilhariam 
o futuro.
  Agarrara-se quela lembrana por quatro anos. Agora, imaginava se Dean um dia lavara o beijo a srio. Com certeza, no dera tanta importncia quanto ela.
  -        Ns superamos isso. Se fosse srio, Dean no teria partido para o outro lado do mundo e me deixado aqui, teria?
Marcus acrescentou:
- E uma romntica incurvel, Katie. Muito bonito, mesmo, imaginar seu irmo gmeo casado com sua melhor amiga, mas, na vida real, esquecemos os namoros de infncia 
e nos casamos com outras pessoas.
- Sua namoradinha se casou com outro? - questionou Katie.
- Claro - respondeu Marcus. - E no perdi nem um minuto de sono por causa disso.
Katie fitou Jenna pesarosa.
-        Andei sonhando acordada?
  -        No vou perder nem um minuto do meu sono - afirmou Jenna, imitando Marcus, tentando parecer convincente.
  Ou Marcus plantara a semente da dvida, ou Katie decidira aceitar a negativa de Jenna.
  -Bem,  um alvio. - Ela fitou a amiga por um momento antes de voltar a empilhar a loua na pia.
  Jenna e Marcus terminaram o caf, e os trs foram se juntar aos demais na festa. Vizinhos apareceram para cumprimentar, e uma prima telefonou para saber do viajante. 
Dean convidou-a para a festa, incluindo os pais e o namorado.
  O clima de festa cresceu. Alguns convidados saram ao ptio de piso cermico, e as crianas foram se refrescar na piscina. Totalmente socivel, Jenna at trocou 
algumas palavras com Dean e a noiva, descobrindo que Callie era exatamente o que parecia ser: uma ftil garota californiana. Ela estudara na mesma universidade de 
Dean, embora s tivessem se conhecido havia poucos meses.
- E quando ele abriu a boca e notei o sotaque charmoso... foi amor  primeira vista - contou ela, afagando o brao de Dean.
- Pensou que eu fosse australiano - provocou Dean, insinuante. - Tive de esclarecer as diferenas entre Kiwis e Aussies.
- Ele levou a noite toda... - denunciou Callie.
- Voc aprende devagar...
  quela altura, Jenna j fora exclusa da conversa e mal disfarou o embarao. Com certeza, os pombinhos apaixonados nem notariam se ela e todos os convivas sumissem 
num piscar de olhos! Marcus pousou a mo no ombro de Jenna.
  -        Meu pai disse que voc ainda no viu a ltima aquisio dele, e me pediu para lhe mostrar.
  Grata por poder se afastar, Jenna acompanhou Marcus at os fundos da propriedade, onde o sr. Crossan, orquidfilo amador, construra uma estufa na qual mantinha 
vasos e cestos pendentes com flores bonitas e exticas.
  O ar ali era fresco, e a serragem que cobria o piso abafava os passos. Aromas perfumados misturavam-se inebriantes.
  Jenna percorreu o caminho estreito entre as bancadas com fileiras de orqudeas, muitas delas em plena florao. Variedades delicadas como renda e outras mais vistosas 
pendiam dos dois lados, as flores extravasando e quase chegando ao cho.
- Qual estamos procurando?
- A cor-de-rosa ali. - Marcus a conduzia segurando-a de leve pela cintura.
  Jenna reteve o flego ante a beleza do novo exemplar com ptalas cheias de babados e amarelas no centro. Roou o dedo na ptala delicada.
- Que coisa mais linda!
- Chama-se Puppy Love - informou Marcus. - Pessoalmente,
prefiro as variedades mais sofisticadas.
  Jenna admirou a planta e sentiu lgrimas nos olhos. Puppy Love... Uma flor frgil. Embora as orqudeas durassem mais do que as outras flores, tambm chegava uma 
hora em que definhavam e morriam.
Ela se voltou abruptamente, e Marcus teve de lhe dar passagem.
  -        No precisa correr. - Ele a seguia com as mos nos bolsos. - Ningum vai notar nossa falta por algum tempo.
  No, ningum sentiria falta dela, pensou Jenna, cheia de auto-piedade. Mas notariam a ausncia de Marcus, com certeza. Ele era figura dominante em qualquer reunio 
familiar, e no s por causa da estatura. Tinha uma aura de confiana e autoridade que todos reconheciam.
  Talvez por ser o mais velho. Jane era pouco mais nova, mas a boa diferena de idade em relao aos irmos menores lhe incutira um senso de responsabilidade exagerado.
  Jenna deteve-se diante de uma planta com florao extravagante em tons de bronze. Enquanto a admirava, as ptalas foram se borrando diante de seus olhos. Mordiscou 
o lbio trmulo, fechou os olhos e respirou fundo.
- Uma das orqudeas premiadas de meu pai. Magnfica, no?
- Sim... - A voz saiu rouca, mas ela procurou se fortalecer. - Como... como se chama, voc sabe?
- O nome deve estar na plaquinha do vaso...
  Marcus inclinou-se para afastar as folhas pontudas, quando sua manga roou no brao de Jenna.
-        Dark Delight.
  Ao se endireitar, ele a fitou detidamente a tocou em seu brao, num gesto de carinho e conforto.
  -        Vai melhorar, sabe...  difcil acreditar agora, talvez, mas garanto que  verdade.
Jenna segurou-se na borda da bancada.
- No quero sua solidariedade, Marcus. - Seria fcil demais permitir que ele a abraasse, consolando da desiluso. Mas superaria aquele dia sem desabar, a fim de 
manter o orgulho, pelo menos, intacto.
- Desculpe-me. - Marcus recuou um pouco, apesar do corredor estreito.
- No quis parecer ingrata.
- No estou buscando gratido, Jenna.
- Voc tem sido muito gentil. - Ela piscou para afastar as lgrimas e ergueu o rosto.
  Marcus tinha uma expresso estranha, como se partilhasse sua dor. Estendeu a mo e enxugou uma lgrima do rosto delicado com o polegar.
-Vai acabar logo.
  Ele manteve o dedo sobre o lbio inferior que ela mordiscara. Ento, sem aviso, inclinou a cabea e beijou-a na boca, suavemente.
CAPTULO III

Durou apenas um segundo, mas o calor chegou ao corao sofrido de Jenna. Marcus recuou e indagou:
-        Voc aguenta voltar para a festa?
Ela assentiu, sentindo-se mais forte, pronta para mais desgaste.
  Na cozinha, Jenna ajudou Katie e a sra. Crossan no preparo da refeio. Algumas visitas j tinham ido embora, mas uma boa multido ainda se reuniu em torno da 
enorme mesa de jantar, e ningum reparou no silncio de Jenna, sentada ao lado de Marcus, que parecia empenhado em ocult-la de Callie e Dean usando o prprio corpo 
como barreira.
  Depois, ele a encontrou ajeitando os panos de prato usados para enxugar a loua.
-        Podemos ir embora quando quiser - prontificou-se.
Jenna agarrou a oportunidade. Composta, aplacou a surpresa de Katie ao se despedir observando que se tratava de uma ocasio familiar, e repetiu os votos de felicidade 
a Dean e Callie.
  Minutos depois, no carro de Marcus, Jenna respirou fundo enquanto travava o cinto de segurana.
Marcus deu a partida e tomou a rua.
-        Pode desabafar agora, se quiser.
Ele devia estar esperando que ela casse em prantos, finalmente.
  Embora lutasse contra as lgrimas havia horas, sua vontade de chorar desaparecera por completo. Permaneceu imvel e quieta durante todo o trajeto de volta  cidade. 
O brilhe do sol nas guas do porto, enquanto rodavam pela via movimentada, parecia zombar de seu estado de desespero.
Marcus deixou a via expressa e olhou-a ao reduzir a marcha.
- Vai ficar bem sozinha?
- No vou cortar os pulsos - prometeu Jenna.
Ele sorriu.
- Sei que no. Se quiser ficar no meu apartamento, tenho um quarto de hspedes...
Ela meneou a cabea.
- Obrigada, mas no. Voc foi maravilhoso, Marcus.
- No me custou nada. Quase torci o pescoo dele, mas no poderia transformar o retorno numa tragdia.
  Marcus podia estar compadecido dela, mas sua preocupao primeira era com a famlia. Sempre na companhia dos irmos menores dele, tambm recebera sua proteo, 
mas, tendo de optar, ele a sacrificaria sem hesitar.
  O que era certo e natural. S que Jenna no se sentia melhor por isso.
-         pena sua me estar to longe...
  Havia trs anos, a me de Jenna se mudara para Invercargill, no outro lado do pas, com o segundo marido.
-        Estou velha demais para correr para a saia da minha me.
Aprendera cedo que recorrer  me nunca resolveria nada. Karen Harper amava a filha, mas houve poca em que enfrentara problemas grandes demais para lidar com os 
de Jenna tambm.
  -        Se precisar de um ombro amigo...  s ligar - ofereceu-se Marcus.
Ela esboou um sorriso.
- Obrigada, mas no ser preciso.
-  do tipo independente?
- Sempre tentei ser.
- Tinha de ser, acho. Deve ter sido difcil perder o pai to cedo.
- Nunca o conheci realmente... tenho apenas vagas lembranas. Mas foi difcil para minha me. Fico feliz que ela tenha encontrado algum.
- Prometemos ficar de olho em voc, sabe, quando ela foi morar no extremo sul.
  Jenna tinha s vinte anos ento, ainda estava na universidade e morava no alojamento de estudantes.
  -        Acho que ela no pensava em ver a filha dando trabalho para a sua famlia a vida toda.
  Marcus conduziu o carro pela tranquila rua de subrbio em que ela e Katie moravam.
  -        Voc no  um fardo, Jenna.  uma amiga. E vai ser difcil para voc nos prximos meses, talvez. No vai se abrir com Katie, vai?
Seria uma pergunta ou um alerta disfarado?
-        No. - J seria um desafio para Katie adaptar-se a uma estranha com direitos sobre seu irmo gmeo. Saber que a melhor amiga estava apaixonada por seu irmo 
s aumentaria o estresse.
- Pronto. - Ele estacionou diante do prdio. - Vou entrar com voc.
- No precisa...
  Marcus ignorou o protesto, e foi melhor assim. Quando Jenna abriu a porta do apartamento, depararam com um desastre. Um fio de gua brotava no teto, escorria pelas 
paredes e espalhava-se no cho manchando todo o carpete.
  -        Que  isto? - Marcus parecia incrdulo. - Um cano estourou ou algum deixou a torneira aberta no apartamento de cima.
  Levaram horas para descobrir. Os proprietrios do apartamento superior tinham viajado. Foram localizados, providenciou-se uma chave e finalmente puderam fechar 
a torneira esquecida aberta. Sanada a causa, chegou a hora da limpeza.
  Marcus permaneceu, apesar dos protestos de Jenna. Ele deu telefonemas, empurrou os mveis, ajudou-a a retirar todo o excesso de gua e contatou uma firma de limpeza 
que enviou dois funcionrios. Eles afastaram mais mveis e ligaram dois grandes ventiladores para secar o carpete, que tinham removido e estendido dobrado sobre 
uma espcie de varal.
O barulho era ensurdecedor.
- Bem, tomamos a providncias, mas voc ter de vir comigo, afinal! - gritou Marcus.
- No sei se...
- No pode ficar aqui! Tudo de que precisa est nesta bolsa?
- Ele ergueu a pequena bagagem que ela preparara para pernoitar na casa dos Crossan.
- S vou trocar de roupa! - avisou Jenna, rendendo-se. Sua cala e blusa estavam molhadas e sujas. - No vou demorar!
  O desastre tivera seu lado bom. Nas ltimas horas, no tivera chance de pensar em Dean e sua noiva...
  O apartamento de Marcus era o oposto da desordem alegre em que Jenna e Katie viviam. Na sala ampla e arejada, dois sofs confortveis alinhavam-se perfeitamente 
com a mesa de centro decorada com um prato de cermica elegante. Mal se via a mesinha de centro delas, sempre coberta de revistas, romances baratos, correspondncia 
comercial, em meio aos quais o controle remoto da televiso se perdia, junto com pacotes de salgadinhos, secador de cabelo e frascos de esmalte.
Os livros e revistas de Marcus ocupavam estantes, provavelmente em ordem alfabtica, pensou Jenna, e no havia sinal de desordem no apartamento.
  O quarto de hspedes no qual foi introduzida tambm era um primor de organizao.
-        A cama est feita. - Marcus pousou sua bolsa sobre a colcha.
-        Sinta-se em casa. Vou telefonar para Katie, avis-la de que voc est aqui e contar sobre o incidente no apartamento.
  Jenna abriu a bolsa de viagem, tirou a saia e a blusa e as pendurou no guarda-roupa vazio para tirar as marcas de dobra.
  Fechou a porta e olhou-se no espelho. Estava abatida, com os lbios sem cor, trmulos. Abriu a bolsa menor, encontrou um batom e o aplicou nos lbios. A seguir, 
massageou as mas do rosto para deix-las coradas. Podia ao menos se esforar para no parecer uma virgem vitoriana em decadncia.
Na sala, Marcus acabava de desligar o telefone.
  -        Vou tomar um banho e trocar de roupa. - Ainda estava apresentvel, apesar das manchas de umidade e sujeira na camisa e na cala. - Est com fome?
  Jenna no pensara em comida. Marcus provavelmente estava faminto.
-Posso preparar alguma coisa enquanto voc toma banho...
-Fechado! Pode vasculhar o freezer. Use o que quiser.
Quase uma hora depois, sentavam-se  mesa de jantar diante de frango assado com arroz e ervilhas.
  -        Parece timo! - elogiou Marcus. - At merece um vinho para acompanhar. Abriu uma garrafa de vinho nacional e sorriu ao degustar, mas no props brinde.
  Apesar do corao despedaado, Jenna no perdera o apetite. Consumiu sua poro toda e tomou todo o clice de vinho.
  Marcus renovou a dose. At ento, no haviam falado muito. Finda a refeio, Jenna lamentou:
- No fiz sobremesa, mas voc tem queijo na geladeira.
- Vou pegar, e ligar a cafeteira. - Ele levou os pratos e voltou com duas variedades de queijo e algumas torradinhas numa tbua.
-        O caf vem j. Quer mais vinho?
-Por que no? No vou a lugar algum...
  Marcus encheu novamente seu clice, e Jenna se deliciou com a bebida. Logo, sentia o calor induzido pelo lcool chegar ao rosto.
  -        No  o fim do mundo, sabe - comentou Marcus, fatiando o queijo.
Ela se irritou.
-No precisa me dizer isso!
-Desculpe-me. - Ele ergueu a mo num gesto de paz. - Pode ficar algum tempo ruminando sua misria. Mas lembre-se de que h vida l fora esperando por voc.
E ela j desperdiara quatro anos.
  -        Tem razo. - No adiantava ficar pensando no que poderia ter sido. Ergueu o clice. - Ao futuro - brindou, o peito estufado.
Marcus imitou o gesto, satisfeito. Jenna sorveu toda a bebida num gole s.
-        Tem mais?
  Marcus hesitou, mas serviu a bebida. Tambm decidiu tomar mais um pouco, e esvaziou a garrafa.
  Quando finalmente deixaram a mesa, o mundo parecia bem melhor. Marcus impediu Jenna de cuidar da loua ao v-la bocejar.
- Foi um dia longo - lembrou. -  melhor voc ir dormir.
- E... - Jenna bocejou novamente.
  Bisonho, Marcus a puxou pela mo. Jenna viu a sala girar e, quando Marcus a soltou, teve de se segurar no brao dele.
- Ooh... Vinho demais.
- Possivelmente - concordou ele, enlaando-a pela cintura. - Vamos.
  Ele a conduziu at a cama no quarto de hspedes, acendeu o abajur e afastou a coberta.
- Consegue se arranjar agora? - indagou, endireitando-se. - Sabe onde fica o banheiro.
- Sim. Obrigada, Marcus.
- Talvez no se sinta to grata pela manh. - Ele a avaliou com expresso divertida e terna. - Boa noite, Jenna.
  Inclinando-se, beijou-a de leve nos lbios... um beijo confortador, de amigo, porm suficiente para abalar o equilbrio precrio de Jenna. Quando ele se afastou, 
ela cambaleou, e ele teve de ampar-la.
  Jenna apoiou-se nele, agradecida pelo esteio firme, e passou as mos nos ombros musculosos. Num impulso, tomou-o de assalto num novo beijo, voraz desta vez, louca 
para afastar todos os pensamentos. No queria pensar, s queria sentir algo que no fosse dor e humilhao.
  E Marcus, talvez entendendo sua necessidade, retribuiu o beijo maravilhosamente bem. Abraando-a, apertou-a contra si, fazendo-a se sentir aquecida e desejada. 
Sentir-se mulher.
  Dali a pouco, ele interrompeu o beijo e a segurou pelos ombros. Tinha os olhos brilhantes e o rosto enrubescido, mas foi severo:
  -        J chega. Durma um pouco. Jenna. At amanh. - Com isso saiu fechando a porta.
  Jenna dormiu surpreendentemente bem, mas acordou com um peso no peito e uma leve dor de cabea.
Uma ressaca, supunha. Todo aquele vinho na noite anterior...
  Fechou os olhos novamente, mas a atitude s reavivou as lembranas, e gemeu. Ela e Marcus, dentre todas as pessoas, entregaram-se a um beijo apaixonado. Onde estava 
com a cabea? E agora teria de encar-lo. J ouvia os passos dele no apartamento, fechando a porta do banheiro, andando pelo corredor...
  No adiantava se esconder na cama, pois ele provavelmente invadiria o quarto para tir-la dali. Relutante, afastou a coberta e levantou-se.
  Tomou banho, vestiu-se e sentiu um cheiro delicioso de toicinho defumado frito vindo da cozinha. Adotando uma postura casual e descontrada, foi ao encontro de 
Marcus. Ele estava diante do fogo, quebrando ovos sobre a frigideira.
-        Hum... Est cheirando bem!
Ele se voltou e sorriu.
- Bom dia! Ouvi o chuveiro e calculei que logo estaria pronta para o caf da manh.
- Posso ajudar?
- Faa torradas, se quiser. O po est ali.
  Jenna manifestou-se s aps terminarem a refeio, diante de sua segunda dose de caf.
- Sobre ontem  noite... desculpe-me.
- Por qu?
- Por ser to... estpida. Bebi demais, ou no teria...
- No teria me beijado? - Marcus sorriu. - Imaginava se se lembraria... No precisa pedir desculpas, Jenna. Pode no ter percebido, mas eu gostei. - Fez pausa. - 
E pensei que tivesse gostado tambm. - Olhou-a incisivo.
Ela sentiu o rosto queimar.
- Eu nunca teria... no pretendia...
- No precisa explicar. - Ele se levantou de repente. - Quer me ajudar a arrumar a cozinha?
Depois, Marcus levou-a de volta ao apartamento dela.
- Vou tentar arrumar um pouco o local antes que Katie chegue - planejou Jenna. - Vai me manter ocupada.
- Ela no vai voltar logo. Eu disse a ela que no adiantava, pois o carpete estava secando.
- Tudo bem. Posso ficar algum tempo sozinha.
Marcus fitou-a preocupado, mas no discutiu.
- Avise, se precisar de algo - ofereceu-se. - Estarei em casa.
E, se no conseguir tornar isto habitvel, voc e Katie podem dormir na minha casa.
  Marcus foi embora e Jenna deu uma volta pelo apartamento. Virou o carpete, reposicionou os ventiladores e abriu trilhas em meio aos mveis at as camas e a cozinha.
  Lembrando-se da organizao do apartamento de Marcus, atirou-se s tarefas de limpar e arrumar. Katie a encontrou concentrada em organizar os armrios da cozinha, 
de onde retirara todas as vasilhas e panelas.
  S quando desentocou do armrio e afastou dos olhos uma mecha rebelde de cabelos, percebeu que Katie no estava sozinha.
Dean sorria-lhe.
- O que est fazendo?
- O que acha que estou fazendo? - rebateu Jenna. No dia anterior, vestira-se com primor, maquiara-se, e ele mal olhara para ela. Agora que estava um horror, ele 
a olhava espantado. - Onde est Callie?
- Problema de fuso horrio. Ela estava com sono. Marcus contou que passou por uma inundao aqui, e achei que as garotas precisariam de ajuda.
  Ele no parecia ter problema de fuso horrio. Estava bem desperto e muito lindo. Jenna desejou estar em qualquer outro lugar, menos ali.
- No h muito a fazer at a firma de limpeza voltar e recolocar o carpete, assim que secar.
- Mas parece ocupada.
- E que me deu vontade... Vou acabar aqui em poucos minutos.
  Jenna tinha esperana de que fossem embora, mas os dois permaneceram na cozinha, conversando e solicitamente passando-lhe os utenslios para guardar no armrio.
  Depois, os trs se sentaram para tomar um caf. Era quase como nos velhos tempos. At que Dean afastou a cadeira.
  -         melhor eu voltar. Callie j deve estar acordada. - Aparentemente, no suportava a ideia de deixar a noiva passar um minuto desperta sem ele.
Assim que ficaram sozinhas, Katie analisou Jenna com cuidado.
- Est mesmo bem?
- Cansada, aps passar a noite enxugando o apartamento, mas, de resto, estou bem. - De chofre, indagou: - O que achou de Callie?
- E impossvel no gostar dela...
- Que bom - retrucou Jenna. - E importante que vocs se dem bem. No que Dean fosse capaz de escolher uma moa de quem voc no gostasse...
Katie hesitou, mas ento desistiu de bater na mesma tecla.
- Lamento que tenha se encarregado da limpeza sozinha. Eu teria pegado o primeiro nibus de volta, mas Marcus garantiu que no havia muito a fazer.
- Ele estava certo, no era preciso voltar. Marcus foi maravilhoso.
- Ele  bom nas crises, esse nosso irmo. Acho que Marcus pensa em voc como outra irmzinha.
- Acho que sim - concordou Jenna, mas a lembrana do beijo na noite anterior voltou com clareza, e enrubesceu.
Katie notou e arregalou os olhos.
- Jenna? Voc e Marcus no... Quando ele disse que a levaria para a casa dele, no pensei...
- Claro que no! - negou Jenna, rpido. - Fiquei no quarto de hspedes. Alis, ele disse que podamos nos instalar l esta noite tambm.
  Katie fitou-a por mais um segundo, e ento meneou a cabea, como se dispensasse uma ideia fantstica demais.
- , mas ainda est bem bagunado por aqui, no? Imagino o jeito que estava ontem.
- Sim, a gua podia ter causado mais estragos antes que algum percebesse. Os vizinhos de cima viajaram neste fim de semana.
  Tocaram a campainha. Jenna apressou-se para atender e viu os vizinhos do andar superior constrangidos, desculpando-se pelo incidente e oferecendo uma garrafa de 
vinho. Katie no teve mais oportunidade de question-la sobre a noite como hspede no apartamento de Marcus.
  Duas semanas depois, o casal Crossan ofereceu uma festa de noivado para Dean e Callie. Katie montou um esquema para passar o fim de semana na casa dos pais e ajudar 
nos preparativos. Jenna no foi, alegando que a casa j estaria cheia e que, alm disso, tinha trabalho para colocar em dia. Mas, claro, compareceria  festa. Marcus 
lhe oferecera carona.
  De fato, Jenna levava trabalho para casa, s vezes. Editava documentos para os membros do conselho da universidade. Katie a deixou trabalhando sobre uma pilha 
de papis na sexta-feira, quando Dean foi busc-la no carro dos pais.
  Naquela semana, Jenna comprara um vestido novo e passara num salo de cabeleireiro chique para clarear algumas mechas dos cabelos e adotar um corte novo e elegante.
  No sbado  noite, Marcus deslumbrou-se ao v-la no vestido rosa brilhante decotado, com sandlias de salto alto.
- Se quer mostrar a Dean o que ele est perdendo, vai conseguir.
-  uma festa - justificou Jenna.
  Marcus estava lindo de morrer! Nunca reparara muito nele, mas nesta ocasio representava a perfeita elegncia masculina ao combinar camisa de linho com cala escura 
e palet leve.
  Quase no conversaram no caminho. Marcus parecia preocupado, e Jenna estava nervosa. Na chegada, ao abrir a porta do passageiro, ele a tocou rapidamente no brao.
- Podemos nos retirar na hora que quiser.
- Ficarei bem - afirmou Jenna, empertigando-se.
  Mas foi inevitvel o aperto no corao quando Dean a abraou e beijou no rosto. Sustentando o sorriso, cumprimentou Callie e lhe entregou a caixa contendo um jogo 
de clices de cristal embrulhada para presente.
  Callie estava radiante e Dean, mais lindo do que nunca. Jenna aliviou-se quando Marcus a afastou do casal feliz a pretexto de pegarem um aperitivo.
- E melhor comer algo tambm - recomendou ele, ao lhe passar o copo de gim com limo. - H castanhas e salgadinhos ali. - Conduziu-a ao bufe.
- No se preocupe. - Jenna pegou um taco e mergulhou na guacamole. - No voy ficar bbada e molest-lo novamente 
prometeu.
Marcus ergueu o sobrolho.
-        Voc me desaponta, Jenna. Eu estava esperando por isso...
Ela arregalou os olhos. Marcus estava flertando com ela?
O sorriso indicava que sim. Ento, ele riu de leve.
-        Eu disse que gostei do beijo. E demais esperar repetio?
Jenna enrubesceu.
- Sim... quero dizer, sabe que eu estava... que eu no estava sbria naquela noite - lembrou, gaguejante. - Katie diz que voc  como um irmo mais velho para mim.
- Katie diz um monte de bobagens. - Marcus observou-a saborear outro taco e lamber a guacamole que escapara. - Acho que devia deixar claro que no a vejo como irm.
  Por um instante, Jenna sentiu-se magoada. Ento, voltou-se na dreo em que Marcus olhava e viu Dean observando-os. Marcus inclinou-se e lhe sussurrou ao ouvido:
-        Se quiser uma nuvem de fumaa, estou disponvel.
Finalmente, Jenna entendeu. Marcus fingia estar interessado nela, para que Dean no desconfiasse de seus verdadeiros sentimentos e se compadecesse diante da pobre-coitada 
rejeitada. Mas o orgulho imps-se.
- No precisa fazer isso, Marcus. Como j disse, sou adulta.
- Voc teve uma paixonite que se desenvolveu mal.
Ela arregalou os olhos ante o tom levemente malicioso.
- Como?
- Entrou em estado de suspenso quando Dean partiu para os Estados Unidos. Quando vai despertar e sorver o perfume das flores?
- No fiquei sentada em casa esperando - protestou Jenna, ressentida com o retraio que ele pintara. - Tenho um emprego interessante e muitos amigos... At tive uns 
encontros.
- Mas no teve nenhum relacionamento srio, teve?
Jenna ficou atnita.
- No  da sua conta!
  Marcus riu alto, relaxando as feies normalmente severas, com calor no olhar. A distncia, Dean olhou para o irmo mais velho, curioso.
-No sei qual  a graa - censurou Jenna.
  O esforo que ele fazia para controlar o sorriso traa a sinceridade das desculpas.
- Estou me lembrando de quando era uma criana...
- Esquentada? - completou Jenna.
Marcus meneou a cabea.
- Um pingo de gente, mas teimosa feito mula. Leal ao extremo e agressiva na defesa. Ningum podia com voc. E ai daquele que atacasse um dos gmeos...
- Um monstrinho.
- Em absoluto. A lealdade pode ter sido mal entendida, mas  uma qualidade admirvel, ainda que irritante, s vezes. E a agressividade se suavizou.
- Eu era bem insegura quando me mudei para este bairro.
Acho que estava compensando o fato.
  Ao enviuvar, a me entrara em depresso, sem nimo para cuidar da filha de seis anos. Jenna lembrava-se do pai trabalhando como empregado de fazenda, tentando 
juntar dinheiro para ter a prpria criao, quando o trator que ele dirigia despencou numa ribanceira. Ele morrera na hora.
  Elas tiveram de se mudar, pois a casa no lhes pertencia, instalando-se na edcula de um casal vizinho em troca de aluguel baixo, durante seis meses.
-        At se recuperar do choque - dissera a mulher.
No perceberam que Karen, tomada pela dor, era incapaz de tomar decises.
  Jenna lembrava-se do dia em que tomara as rdeas da prpria vida. A me mergulhara em devaneio com a esptula de manteiga na mo, enquanto preparava seu lanche 
para levar  escola.
  -        O nibus escolar j vai passar! - alertara Jenna, impaciente. Tivera de acordar a me para lhe preparar o caf da manh. - Mame?
  A me parecia surda. Jenna percebeu que ela chorava baixinho, as lgrimas rolando pelo rosto, alheia a tudo, exceto  prpria dor.
  Fora o momento mais solitrio de toda a curta existncia de Jenna. Pior do que ao ver o caixo do pai baixando  sepultura, vagamente cnscia de que nunca mais 
o veria.
Tirou a esptula da mo da me.
-        Deixe que eu mesma fao isso.
  Esgotado o prazo de seis meses, elas se mudaram para uma cidadezinha que um dia florescera em torno de uma fbrica. Boa parte da populao debandara aps a falncia 
da nica empresa geradora de empregos, e o excesso de oferta de moradias acabara baixando o valor dos aluguis.
  Jenna, transferida no meio do ano letivo, era uma forasteira na nova escola. Suportara o isolamento e alguma provocao dos colegas, mas aprendera a se defender 
e, com o tempo, fizera amigos.
  Tinha de lembrar  me a hora de lavar roupas e de preparar o jantar, bem como que era preciso comprar mantimentos. Durante dois anos, ela cuidou da me, assim 
como a me cuidou dela.
  Ento, um dia, Karen olhou para a casa em que moravam como se nunca a tivesse visto antes e decidiu:
-        Vamos nos mudar daqui.
  Transferiram-se para um bairro de subrbio agradvel, cuja metade da populao ia trabalhar em Auckland todos os dias. Onde as pessoas cultivavam rosas e hibiscos 
e aparavam a grama todas as semanas. A sra. Crossan as saudou junto  cerca e convidou Jenna para nadar e brincar com seus gmeos.
Aquele foi o primeiro dia de uma grande amizade.
CAPTULO IV

- Por que o sorrisinho sonhador? - Marcus invadiu sua recordao do passado.
- Estava me lembrando de quando conheci Dean e Katie. - Jenna concluiu que Marcus devia estar no quintal tambm, mas naturalmente interessou-se mais pelos gmeos, 
que tinham sua idade.
- Isso explica - retrucou ele.
  Ela s se lembrava de um dia ensolarado e do riso das crianas brincando de pega-pega no gramado, na piscina, e escalando os galhos fortes de uma velha rvore, 
da qual desciam por uma corda. A me assistia  cena relaxada, quase to normal quanto fora dois anos antes, sorrindo ao conversar com a sra. Crossan.
Marcus interrompeu o devaneio mais uma vez.
  -        Perder um sonho de juventude no  o fim do mundo. Um dia, vai ver que isso j no di mais.
-- Foi assim com voc?
  Ele franziu o cenho, como se no entendesse do que ela falava. Jenna esclareceu:
- Voc disse a Katie que sua namoradinha de escola se casou com outro.
- Oh, isso. - Marcus suspirou. - Isso mostra, est vendo? Tinha me esquecido completamente.
- Acho que voc inventou essa histria - acusou Jenna.
- No. Aos onze anos, apaixonei-me por uma menina da minha classe. Era gorda de rosto avermelhado e aparelho nos dentes. Eu achava aquilo incrivelmente sexy.
- Sexy? - Jenna quase engasgou com o aperitivo.
- Meninos de onze anos gostam de equipamentos. Avies, motocicletas e garotas com a boca cheia de metal brilhante.
- Chegou a beij-la?
- No Eu a adorei de longe... bem, duas carteiras atrs... por seis meses, ento, fomos para escolas diferentes no ano seguinte, e nunca mais a vi.
Jenna lamentou.
- Que triste.
- Uma tragdia - concordou Marcus.
  Jenna riu, espantada por ainda conseguir. O n pesado em que seu corao se transformara comeava a se desatar, enfim.
  Marcus tinha razo: superaria o choque e a dor secreta. Agradecida, tocou-lhe o brao.
-        Obrigada.
  Ele deu de ombros, parecendo levemente irritado. Ento, como que para disfarar, tomou-lhe a mo, envolvendo os dedos com seu toque forte.
  -        No tem o que agradecer -- declarou, srio. - Mas estou monopolizando voc.  melhor circularmos.
  Mais tarde, Jenna ajeitava uma travessa de ostras com fatias de limo e salsinha na mesa de bufe quando Marcus aproximou-se.
- Parece bom - comentou ele. - Devo guardar algumas para voc antes que desapaream?
- Obrigada. - Jenna sorriu, mas voltou rpido  cozinha para ajudar Katie e a'sra. Crossan.
  Quando todos j haviam se servido, Marcus a procurou com uma travessa grande de entradas, crustceos e asas de frango na mo.
  -        Achei que podamos partilhar. - Pegou guardanapos e garfos da mesa e olhou ao redor. - No tem lugar para sentar. Vamos l para fora?
  Seguiram por uma passagem em que algumas pessoas se mantinham de p, segurando o prato e os talheres.
-        Segure isto um pouco.
  Jenna pegou a travessa, e Marcus voltou dali a pouco com uma garrafa aberta de vinho e duas taas.
  Por dentro, a casa se iluminava com a claridade das janelas, mas o quintal estava fresco e em penumbra. Marcus tomou o rumo da velha rvore que existia ali desde 
antes de a famlia se mudar para l.
  Adivinhando o objetivo, Jenna o acompanhou de bom grado. Lembrava-se de quando o sr. Crossan construra o banco de madeira ao redor da rvore. E do vero em que 
Marcus ajudara os mais novos a construir uma plataforma nos galhos retorcidos. Cansaram-se de brincar ali, por anos a fio, at que se tornaram crescidos demais para 
isso e a plataforma caiu de velha.
  A me de Jenna aos poucos baniu a tristeza, voltando  vida normal. Arranjou emprego numa editora, a princpio meio perodo, depois em tempo integral, como encarregada 
da distribuio. A sra. Crossan encarregara-se de ficar de olho em Jenna na volta da escola.
  Uma vez, quando Jenna tinha treze anos, Karen considerou mudar-se para o subrbio junto  praia, mais perto do escritrio em Auckland, mas desistiu ante a reao 
da filha, chorando raivosa. Foi como se toda a insegurana e misria que experimentara nos dois anos aps a morte do pai retornassem, e ela se trancara no quarto, 
revoltada. Karen nunca mais mencionou o assunto.
  Jenna sentou-se no banco de madeira e pousou a travessa no vo entre ela e Marcus. Uma brisa movimentou as folhas, e ela esfregou os braos.
  -        Est com frio. - Marcus despiu o palet e o ajeitou sobre os ombros dela, ignorando os protesto. O forro de cetim a aqueceu, e o leve perfume de madeira 
misturou-se ao cheiro do tecido.
Marcus serviu o vinho e passou-lhe uma taa.
- O que vai querer? - indagou, indicando a travessa.
Jenna estreitou o olhar sobre as iguarias.
- No consigo distinguir...
- Ostras? - Ele lhe passou um garfo.
- Se conseguir encontr-las.
Marcus espetou uma regio da travessa.
-        Abra a boca - instruiu.
  Ela obedeceu, e ele introduziu um bocado de comida. Marcus observou-a mastigar antes de se servir tambm.
  Quando seus olhos se acostumaram com a fraca iluminao, Jenna reconheceu o brilho perolizado das ostras e as atacou. Consumiu tambm asas de frango e uma massa 
saborosa. O restante, deixou para Marcus, passando a saborear uma segunda dose de vinho.
- No se alimentou bem - observou ele.
- S queria as ostras.
Ele desaprovou:
- Isso no  refeio.
- Estou satisfeita.
  Marcus consumiu metade da travessa, limpou os dedos no guardanapo e recostou-se na rvore antiga para saborear o vinho.
  Uma mariposa passou por eles e desapareceu na escurido. Continuaram degustando a bebida, atentos aos risos vindo da casa.
- Devamos voltar  festa? - indagou Jenna.
- No h pressa. Ainda est com frio?
- No, mas voc... - Ela tocou no palet que ele lhe emprestara.
- No se preocupe comigo.
  Na casa a risada diminuiu, substituda por um burburinho. Uma voz... a do sr. Crossan... destacou-se, seguida por palmas.
  -        Esto fazendo discursos - concluiu Jenna. Discursos de felicitaes. Dean declararia algo sobre o noivado, sobre a noiva. - Voc devia estar l. - Todos 
deviam estar indagando sobre Marcus.
Ele agarrou-lhe a mo, impedindo-a de se levantar.
- Voc no quer estar l, quer?        
Jenna no respondeu.
- Nem eu - adiantou Marcus. - Vamos acabar o vinho.
Assim fizeram, o silncio pontuado pelas vozes dos amigos de Dean, risadas e aplausos, alguns brindes. Quando, o burburinho de conversas paralelas recomeou, Jenna 
suspirou aliviada.
  Marcus esvaziou a taa, pegou a de Jenna, tambm vazia, e as deixou junto da garrafa vazia.        
-        Voc est bem? - indagou ele.        
-        Claro. - Jenna levantou-se, to rpido que o palet escorregou.
J de p, Marcus pegou o palet e o ajeitou novamente nos ombros dela.
  Ele no se afastou em seguida, mantendo as duas mos na lapela. Num impulso/beijou-a de leve na testa, o que, para desnimo dela, lhe propiciou lgrimas. Ela reprimiu 
um soluo.
  -        Jenna - consolou ele, beijando-a no rosto molhado. - No chore.
  Homens detestavam ver mulheres em prantos. Jenna estava constrangendo a ele... e a si mesma.
- De... desculpe-me - sussurrou ela, cerrando os dentes. - Deixe-me sozinha... eu ficarei bem. - Fechou os olhos para estancar as lgrimas.
- No posso. - Marcus a segurou pela nuca e acariciou a pele sensvel atrs da orelha.
  Fitaram-se por um segundo. Ento, ele a beijou nas plpebras midas. A seguir, Jenna sentiu o calor da boca dele junto  sua, a lngua levemente provocante, pedindo 
passagem... havia uma certeza e uma ternura eletrizantes.
  Jenna emitiu um som abafado de surpresa e, por um segundo, Marcus hesitou. Logo determinou-se e a abraou pela cintura por dentro do palet. Espalmando as mos 
com firmeza nas costas macias, iniciou uma trilha de beijos ardentes por seu pescoo.
  Jenna sentiu o corao disparar, o corpo em chamas. Seu juzo lhe dizia que aquilo era loucura, mas a matria no obedecia. Reagia s batidas do corao de Marcus 
junto ao seio, a respirao ofegante. Ao inalar o cheiro de banho e masculinidade, o beijo tornou-se mais ntimo, excitante. Sem pensar, agarrou-o pelo pescoo, 
e o palet escorregou de seus ombros para o gramado.
  O ar frio os envolveu, e ela estremeceu. Marcus ergueu a cabea de repente, afrouxou o toque e separou-se um pouco.
- No pretendia que o beijo sasse to... entusiasmado - afirmou, respirando fundo.
- Eu tambm me deixei levar. - Jenna sentia-se perdida, como se transpusesse uma porta conhecida, mas se visse num pas estrangeiro. - E no pretendia que fosse 
assim, tampouco.

- Eu sei. - Marcus abaixou-se e pegou o palet.
Jenna recuou.
- Pode ficar com ele. - Estava com calor naquele momento. -        E... j vamos entrar mesmo.
-        Est mais do que na hora, eu diria. - Ele pareceu hesitar. -        Acho que no foi nem razovel.
Razovel? Fora... espantoso, pensou ela. E um choque.
- Mesmo assim... sabe o que dizem. - Marcus jogou o palet sobre o ombro e passou a mo nos cabelos.
- O qu? - Jenna tentava entender o que acontecera ali, e mal ouvia o que ele dizia.
- Sobre amor e... esquea. - Marcus suspirou resignado. - Causou o efeito desejado, de qualquer forma. Voc parou de chorar.
Sim, parara mesmo. Jenna engoliu em seco.
- Mtodo um pouco drstico, no?
- Foi s um beijo, querida. - A atitude dele era casual, como se um beijo... aquele beijo... no fosse nada.
  Pela primeira vez, Jenna cogitou quo experiente Marcus seria em termos de sentimento. Conhecera algumas de suas namoradas, mas no sabia se ele chegara a amar 
alguma delas. Com certeza, era bem mais experiente do que ela. Mas talvez no desse tanta importncia aos beijos...
- Bem, sabe como o vinho me afeta - justificou Jenna, sem graa. - E tomamos uma garrafa!
- Voc no est bbada - assegurou Marcus, um tanto spero.
-        Se estivesse, eu no teria tocado em voc.
  Era um aviso de que queria beij-la novamente. Mas ela acreditava que o objetivo fosse desconcertar Dean, faz-la rir e parecer que se divertia na festa. Provar 
que ela podia atrair outros homens.
  Jenna no tinha dvida de que ele apreciara o beijo. Tambm no podia negar que gostara.
  Mesmo sofrendo com a perda de Dean, como podia responder a outro homem daquela forma? Com certeza, no era to frvola.
  Sexo, concluiu, enquanto voltavam para a casa. Mantivera a questo em segundo plano durante quatro anos e agora seus hor-mnios se rebelavam.
  E talvez tivessem razo. No devia fidelidade a ningum. Que motivo tinha para manter o celibato? S seus princpios ultrapassados, a noo romntica de que devia 
esperar pelo casamento, mais a cautela inata.
  Por um segundo, acalentou a ideia de propor a Marcus: "Vamos para o seu apartamento, para a cama. Faa amor comigo".
  Mas, claro, no podia. Seria totalmente contrrio a seu comportamento normal e, pela manh, provavelmente estaria arrependida. Alm disso, pernoitariam ali, Marcus 
no quarto que ocupara quando menino, ela no quarto de Katie. Recusava-se a imaginar onde Dean e Callie dormiriam...
  De qualquer forma, ela e Marcus... impossvel. Era chegada demais  famlia. Como reagiriam todos se descobrissem? Haveria implicaes, repercusses. Nada mais 
seria como antes. Poderia perder a coisa mais prxima de famlia que j tivera.
  A ideia lhe despertou um pnico conhecido, semelhante ao que experimentara quando a me sugerira que se mudassem para mais perto da cidade e, anos depois, quando 
ela anunciou que ia se casar novamente e se transferir para Invercargill com o marido, um publicitrio que conhecera numa conferncia.
  Naquele momento, Jenna aceitara a separao, cnscia de que no podia negar  me sua segunda chance de felicidade, quando ela mesma esperava se casar em poucos 
anos.
  A me a convidara para acompanh-los e continuar os estudos no sul. Aps meses de indeciso, optara por permanecer em Auckland. No queria ser uma terceira roda 
no casamento da me.
  Marcus abriu a porta dos fundos e acendeu a luz. Jenna piscou ante a claridade. Ele fechou a porta e a fitou de olhar estreito.
  Ela chorara e, ento, fora beijada. Provavelmente, estava um horror. Levou a mo aos cabelos e enganchou as mechas na orelha.
- Preciso me arrumar...
  Jenna subiu apressada a escada se servio. Do topo, olhou por . sobre o ombro e estacou. Marcus a observava l de baixo, com uma expresso que ela nunca vira antes. 
Parecia lascivo, quase predador.
  Ento, ele sorriu, totalmente transformado. Fora iluso de tica, convenceu-se Jenna. O ngulo da cabea salientara as mas do rosto altas, e os olhos cinza pareceram 
mais escuros. Aliviada, voltou-se e foi ao banheiro.
  De algum modo, Jenna suportou o resto da festa e no teve dificuldade em adormecer. Talvez o vinho tivesse ajudado.
  Katie descansava de bruos com o rosto enterrado no travesseiro quando Jenna se levantou e foi tomar banho.
  Quando saiu ao corredor, com os cabelos midos e embaraados, enrolada numa toalha grande, viu Marcus recostado na parede, de braos cruzados sobre o peito nu. 
Usava s um short preto.
  Jenna j o vira com menos roupa ainda. Na companhia das crianas Crossan, ela passara veres inteiros nadando. Tampouco, era a primeira vez que deparavam um com 
o outro na entrada e sada do banheiro.
  Mas nunca reparara de fato nos ombros largos de Marcus, em contraste com os quadris estreitos, de onde partiam pernas longas e musculosas, perfeitamente proporcionais, 
sem falar nos braos...
  Tampouco jamais sentira-se to ciente de que usava to pouco. A toalha era grande e cobria bem seu corpo, mas deixava de fora os ombros e as pernas. Embora Marcus 
se mantivesse impassvel, ela percebeu que uma excitao primitiva se apossava de seu corpo. Apertou a toalha junto ao corpo, aliviada por ele no poder ver atravs 
do tecido.
Marcus endireitou-se.
- Bom dia. Ouvi o chuveiro desligar e achei que sairia logo.
- E todo seu. - Jenna seguiu para o quarto.
- Obrigado. - Ele entrou no banheiro, mas se voltou. - E... Jenna?
Relutante, ela olhou por sobre o ombro.
-        Sim?
- Obrigado por ontem  noite.
Jenna enrubesceu.
- Eu devia agradecer por sua compaixo.
Marcus franziu o cenho.
- Acha que era isso?
- O que mais seria?
 Outra porta se abriu, e Dean passou ao corredor.
        Oi. - Fitou-os sonolento. - Tem gente no banheiro?
-        Eu - avisou Marcus. - No vou demorar.
Jenna estufou o peito.
-        Bom dia, Dean!
  Marcus fechou a porta do banheiro, Dean grunhiu algo em resposta a Jenna e entrou de novo no quarto. Ela voltava para o quarto de Katie quando ouviu Dean dizer 
algo, mas no entendeu.
  Jenna preparava caf e torradas quando Marcus entrou na cozinha. Ele era o nico madrugador nato da famlia, e no seria aquela a primeira vez que partilhariam 
o desjejum antes que os demais se levantassem.
  -        Como nos velhos tempos - citou Marcus, verbalizando o pensamento de Jenna ao se acomodarem ao balco.
  Ele pegou uma torrada e espalhou manteiga. Jenna ofereceu-lhe a marmelada e saboreou uma torrada para no ter de responder. No era como nos velhos tempos. Era... 
diferente.
  Ela observou Marcus pegar uma poro de marmelada com a colher e pass-la na torradas. Ele tinha mos grandes e os dedos longos. Mos de homem, com plos escuros 
sobressaindo-se da pulseira prateada do relgio de pulso. Na noite anterior, sentira o calor daquela mo na pele enquanto ele a beijava.
Jenna desviou o olhar e fitou a superfcie negra do caf.
  Nunca prestara ateno de fato em Marcus, que contava dezes-seis anos quando feia e a me chegaram  vizinhana. Ele j era quase adulto, com a sombra da barba 
tomando conta do rosto e os membros musculosos, atlticos. Lembrava-se de imaginar como seria ser adulto, mas no chegara a perguntar-lhe.
  No se lembrava de quando o processo se completara... a transformao do rapaz magro num homem forte e bem formado.
  Quando Jenna chegou  adolescncia, Marcus j era adulto, algum que ela via cada vez menos. Ele fora para a universidade, formara-se em comrcio e ento arranjara 
emprego de guarda de segurana na Inglaterra, permanecendo um ano.
  De volta  Nova Zelndia, em sociedade com um amigo, ele abrira uma pequena empresa fabricante de portas e portes de segurana. O negcio cresceu, e passaram 
a atuar tambm no ramo de alarmes, automatizao de portes, circuito fechado de segurana. J gozavam de certa notoriedade no ramo.
  Um ano antes, Katie contara a Jenna, toda orgulhosa, que seu irmo j conseguira seu "primeiro milho". Era verdade, tanto que j aparecera em reportagens de jornal, 
com direito a foto. Marcus era um sucesso!
  Para Jenna, porm, ele continuava a ser o irmo mais velho de Katie e Dean.
Marcus levantou-se e levou a caneca vazia  pia.
-        Quer mais caf?
  Jenna estendeu sua caneca e observou seus movimentos enquanto vertia mais da bebida. Ele pousou a caneca dela sobre a mesa antes de se sentar.
-        No est de ressaca, est?
  Jenna negou. Apenas mantinha-se reservada, considerando o episdio sob a rvore na noite anterior. Marcus tinha razo, no estava bbada ao beij-lo, alis, tomara 
cuidado para no se embriagar. Se conseguira se comportar mal estando sbria, o que poderia fazer entregue aos efeitos do lcool?
- Em que est pensando? - especulou ele.
- Na minha vida. - Jenna tinha amigos com quem gostava de estar, seu emprego na universidade era estimulante, frequentemente desafiador, s vezes, emocionante, e 
o salrio bastava para pagar sua parte do aluguel e todas as despesas pessoais.
  Jenna era eficiente no trabalho, mas nunca fora ambiciosa. Enquanto Marcus abria um negcio, Dean ia estudar no exterior para investir na carreira e Katie se promovia 
a gerente no escritrio, ela marcara passo, feito Bela Adormecida aguardando o retorno de Dean, o Prncipe Encantado que a conduziria ao "felizes para sempre".
  Paixonite mal desenvolvida, definira Marcus. Jenna franziu o cenho. Colocara a vida em suspenso por causa de um amor adolescente.
- Acha que fui tola - desabafou, sem prembulo.
- Nunca disse isso.
- Mas pensa.
- Todos cometemos erros. - Ele fez pausa. - Eu mesmo cometi erros mais graves.
Jenna no acreditava.
- S est tentando me fazer me sentir melhor.
Marcus sorriu contido.
- Isso mesmo. Est funcionando?
- Conte-me os seus erros.
Ele meneou a cabea. Ento, confessou:
- Acho que no beijar Essie Ramsbottom foi um erro.
- Essie?
- Aquela do aparelho nos dentes - relembrou Marcus. - Agora, nunca saberei como seria... - Esperou Jenna rir. - E acho que beijar voc foi um erro. Mas no posso 
dizer que me arrependo, pois agora sei como .
Jenna desviou o olhar.
- Esquea isso - pediu.
- Ah, no.
  Ele se recostou na cadeira, a mo pousada na mesa, a outra enganchada no cs da cala jeans, e fitou Jenna reflexivo.
  
CAPTULO V

Jenna sentiu um arrepio estranho na espinha. No era medo... claro, no estava assustada com Marcus, isso seria impensvel. Mas no conseguia deixar de pensar na 
noite anterior, quando se voltara no topo da escada e vira o olhar dele.
-        O que quer dizer? - indagou, cautelosa.
  Ele abandonou a expresso pensativa, inclinou-se para pegar a caneca e ento e fitou novamente, enigmtico.
-        Tento aprender com meus erros - explicou. - E voc?
Jenna tomou um gole de caf. O que aprendera em quatro anos desperdiados? Que no devia perder mais tempo, era a concluso lgica.
- Talvez eu deva ir embora - considerou.
- Embora?
- Para a Austrlia... ou Invercargill, talvez. - Onde a me estava.
- Correndo para a mame, ento? - Marcus parecia desgostoso. - Pensei que tivesse mais fibra.
- Foi s uma ideia. No preciso de ningum para me dizer o que fazer ou no.
- Isso mesmo, menina!
- E no sou menina. - Jenna irritava-se com o hbito dele de provoc-la.
Ele concordou:
  -        No,  uma mulher muito bonita, Jenna. Com inteligncia e fora, quando se lembra de us-las. - Notou sua expresso surpresa e constrangida, mas ainda 
acrescentou: - E tem uma boca pecaminosamente sexy...
  Boquiaberta, Jenna tentou pensar numa resposta  altura da impertinncia, mas nenhuma lhe ocorreu. Ento, para seu alvio, ouviram passos na escada e o sr. Crossan 
entrou, esfregando as mos, ansioso por caf fresco.
  Embora tivessem surgido antes no corredor, Dean e Callie foram os ltimos a descer para o desjejum, ambos enrubescidos, parecendo felizes e ainda sonolentos. Exalavam 
amor.
  No pense nisso, repreendeu-se Jenna. E tentou, com empenho, seguir a determinao.
  Almoaram as sobras da festa, na cozinha mesmo, os homens recostados nos balces, as mulheres espremidas  mesa. Ningum se animara a pr a mesa de jantar e levar 
as travessas de comida para l.
Callie pegou uma asa de frango fria e puxou conversa com Jenna:
- Voc cresceu com Dean e Katie, no?
- Hum-hum. - Jenna deu uma mordida num sanduche. Havia tomate no recheio e o po amolecera.
- Ento, so velhos amigos. Deve ter histrias para me contar, aposto. - Callie lanou um olhar sugestivo ao noivo, de p ao lado de Marcus. - Katie  leal demais 
ao irmo gmeo para revelar qualquer segredo.
Jenna engoliu em seco, o po mido embolado na garganta.
- Tambm no me atreveria - replicou. - Dean sabe demais sobre a minha infncia. - S lhe faltava contar para Callie os pecadilhos juvenis de Dean.
- E verdade. - Dean se achegara e sorria para ambas. - Pare de pressionar Jenna, amor.
- Pergunte a Marcus - sugeriu Jenna. - Ele vivia salvando a ns trs de encrencas.
- Marc? - Callie voltou-se para o futuro cunhado. - Vai me vingar? Meus parentes contaram a Dean todas as situaes vergonhosas que vivi quando criana. At mostraram 
minhas fotos de beb!
Marcus sorriu.
- Se quer fotos de beb, acho que mame tem uma dele pelado no tapete.
- Ooh! - Callie arregalou os olhos. - Preciso ver isso! H uma sua tambm, Marc?
Marcus e Dean riram.
  Jenna mal disfarava a raiva. Callie s estava se divertindo, no flertando com Marcus. Marc. Jamais abreviara seu nome. Na verdade, Dean era o nico que fazia 
isso.
  Claro, por isso, Callie tambm o fazia, sem saber que Marcus no gostava.
  No que ele parecesse se importar naquele momento, sorrindo para a noiva do irmo como se se conhecessem desde sempre. Como se no ligasse para o fato de ela o 
chamar por um apelido, desde que lhe sorrisse.
  Era injusto, concluiu Jenna. Marcus, como o resto da famlia, queria que a noiva de Dean se sentisse aceita.
  Nem sabia ao certo por que estava zangada. Talvez por hiper-sensibilidade aos sentimentos de Dean, ante sinais de que a noiva dele poderia estar interessada em 
outro homem.
E os sentimentos de Dean no eram mais da sua conta.
  Os outros riam, Dean protestava contra a ideia de exibirem suas fotografias de quando era beb, Marcus dizia que as fotos no eram do interesse de ningum.
  Jenna captou o olhar de Katie, pensou detectar um que de ansiedade, e percebeu que no era a nica a ficar  margem da zombaria. Forou um sorriso e voltou-se 
para Callie, informando:
- Eu tenho uma foto dos dois como vieram ao mundo.
Katie ficou exultante.
- Oh, ainda a tem? Callie, voc precisa ver!
- Xeretinhas - acusou Dean. - Paparazzi.
  Aos doze anos, Jenna ganhara uma cmera fotogrfica no Natal, quando os Crossan a convidaram para acampar junto ao lago num feriado. Naquela idade, os amigos de 
Dean- viam a companhia de garotas com desconfiana. Dean e um amigo foram nadar sob a superviso de Marcus. Jenna e Katie os seguiram, esconderam-se atrs de arbustos 
na beira do lago e tiraram fotos deles quando correram nus para a gua.
  Marcus fitava Jenna. Inclinou de leve a cabea e ergueu o sobrolho. Ela devolveu o olhar desafiadora.
-        Vou procurar a foto quando chegar em casa - prometeu.
Jenna sabia exatamente onde estava, numa caixa de madeira
que guardava seus bens mais preciosos: a foto do casamento dos pais, uma foto sua quando beb nos braos do pai, um alfinete de gravata de ouro e prola que pertencera 
a ele, as alianas de casamento que a me lhe dera ao contrair novas npcias, fotografias de Katie e Dean, com ou sem outros membros da famlia, algumas em sua companhia.
  Marcus despejou o resto de caf na pia. Jenna imaginou se estaria constrangido com a ideia de rever a foto. Afinal, era mais velho do que os outros na poca, e 
j estava mais desenvolvido...
  No que houvesse muito para ver. Sara de costas para a cme-ra, mas Jenna se lembrava de v-lo despindo a cala jeans, enrubescendo atrs da cmera, cheia de 
culpa e excitao ao v-lo se endireitar, retesando os msculos das costas e coxas ao entrar na gua.
Callie sorriu maliciosa.
-        Gostaria de ver essa foto, um dia.
Jenna j se arrependia da oferta audaciosa.
Marcus deixou a irm e Jenna no apartamento delas, mais tarde, e aceitou o caf que Katie ofereceu, mas no ficou muito tempo. Enquanto Katie lavava a loua, Jenna 
o acompanhou at a porta.
  -        Posso dizer que perdi aquela foto, se no quiser que Callie a veja - sugeriu.
Com a mo na maaneta, Marcus voltou-se.
  -        Isso no me aborrece. S estou surpreso por t-la guardado por tanto tempo.
Jenna no respondeu, e ele riu.
- Claro, Dean aparece nela. Quantas fotos dele guardou?
- Tenho fotos de todos vocs. - Embora o palpite dele fosse acurado demais. - Deve ter fotos minhas em algum lugar. - Supondo que preservasse fotos familiares.
Os olhos dele brilharam.
- Eu tenho... em algdm lugar.
- Viu!
- O qu?
- Foi uma expresso retrica. No quis dizer nada com isso.
Marcus suspirou impaciente.
- Sim, eu sei. Acho que  cedo demais.
  Para qu? Mas no perguntou, mantendo a boca fechada por instinto.
  -        Um dia, ter de deixar desse casulo em que se enfiou - previu Marcus. - Quero ver o que vai sair da.
Ele saiu fechando a porta, e Jenna fitou a madeira pintada.
Ele nem se despedira. E parecera zangado.
Com ela? Mas no fizera nada...
Jenna voltou para a cozinha de cenho franzido.
Katie voltou-se da pia e reprimiu um bocejo com a mo molhada.
- Vou dormir cedo - avisou.
- Eu tambm. Quer que eu enxugue?
- Deixe, seca sozinha. - Katie fechou a torneira e enxugou as mos. - Voc est bem, Jenna?
Ela conteve o impulso de responder com uma careta, um costume delas. Katie s estava preocupada.
-        Um pouco cansada, como voc.
   Jenna aliviou-se ao se isolar no prprio quarto, finalmente. Vestiu uma camiseta bem grande e se instalou na cama. Segundos |depois, levantou-se e abriu a ltima 
gaveta do guarda-roupa.
   Voltou para a cama com a caixa de madeira nas mos e pousou-a |no criado-mudo. Abriu um envelope com fotos.
   L estava. Dois meninos com gua na altura das coxas, brincando, rindo. E Marcus... a cabea levemente voltada de forma a Idestacar o perfil, os ombros largos, 
os quadris estreitos e as pernas |longas com uma camada de plos...
   Apreciou o rosto sorridente de Dean e sentiu uma ternura assexual pela criana em sua inocncia.
 Analisou Marcus, alheio  cmera, parado, alto e forte. Nova-aente, sentiu o rosto queimar de culpa e excitao, como no dia em que tirara a foto. Uma excitao 
que ela atribura ao medo da "descoberta.
  Nunca reagira assim antes, tendo revisto a foto centenas de vezes. Sempre se concentrara em Dean, desprezando a imagem de Marcus e do outro garoto, cujo nome nem 
se lembrava. Banira... enterrara no subconsciente... a lembrana daquela emoo, porque se sentia constrangida.
  Recusara-se a reconhecer na poca, mas no era mais uma adolescente assustada com as manifestaes fsicas dos hormnios. Agora, sabia o que era aquele sentimento. 
Voltara a experiment-lo na noite anterior, no jardim, quando Marcus a beijou. E ela retribuiu. Era desejo.
  Jenna evitou Marcus deliberadamente nas duas semanas seguintes. Era hora de recuperar um senso de perspectiva, convenceu-se. Para reprimir emoes recm-descobertas, 
perturbadoras e, de certa forma, perigosas.
  No foi to difcil, a princpio. Marcus sempre se disponibilizava quando a famlia precisava dele, ou numa ocasio especial a comemorar, mas era o filho mais 
auto-suficiente, e Katie chegava a passar meses sem v-lo.
  Certa tarde, Katie avisou que Marcus telefonara e vinha visit-las. Jenna inventou que tinha de passar na biblioteca para devolver livros e que planejara jantar 
com uma colega do trabalho.
  -        Talvez eu chegue tarde em casa - previu. - Diga a Marcus que mandei um beijo.
  No se viam havia exatos dezesseis dias quando ela atendeu ao telefone e logo reconheceu a voz grave.
- Jenna?
- Oi - murmurou ela, acrescentando rpido: - Vou chamar Katie.
Depois, Katie comentou:
  -        No sei por que ele telefonou. No  do feitio de Marcus telefonar s para bater papo...
  Nas primeiras semanas aps a chegada de Dean, Marcus fora ao apartamento delas vrias vezes, para ver a irm, imaginava Jenna, preocupado com a possibilidade de 
ela estar triste com o casamento do irmo gmeo. As visitas foram escasseando na medida em que Katie se acostumava com o distanciamento de Dean, e ambas provaram 
que podiam se cuidar sozinhas.
  Marcus temia que Katie se sentisse abandonada pelo irmo gmeo, agora noivo. Jenna tambm se mantinha atenta a sinais de depresso, mas ela parecia reagir bem 
 nova situao. Os gmeos conversavam quase todos os dias, e Katie almoou com Callie no dia em que Dean compareceu a uma entrevista para emprego. Elas at combinaram 
uma noite "s para meninas", com cinema, escolhendo um filme romntico, claro, e encerrando a noite com sobremesas calricas num caf vinte e quatro horas.
Katie imaginou que lenna participaria tambm.
  -        E Callie vai dormir aqui. Ela no se importa de dormir no sof. Tudo bem para voc?
  Jenna concordou imediatamente. E participou das atividades, incapaz de inventar uma desculpa que no despertasse a desconfiana de Katie.
  Felizmente, durante o filme, no tiveram de conversar, e no caf a msica estava alta demais para baterem papo. De volta ao apartamento, Katie lembrou que Jenna 
prometera mostrar a Callie a foto de Dean e Marcus nus.
  -        Eu a perdi - declarou Jenna, sem pensar duas vezes, e sentiu uma pontada de culpa. Normalmente, no mentia, mas era tarde demais para voltar atrs. - 
Lamento.
  Katie fitou-a surpresa e Callie pareceu desapontada, mas logo esqueceu a questo. As duas ainda conversavam e riam muito tempo depois de Jenna se recolher.
  Jenna reconheceu, para sua vergonha, que estava com cime, e imaginou se subconscientemente no tinha esperana de que, se Katie e Callie no se dessem bem, Dean 
mudasse de ideia quanto a desposar a americana. Ento, decidiu parar de procurar sinais desse tipo, sob pena de enlouquecer.
  Katie queria passar o fim de semana seguinte na casa dos pais e convenceu Marcus a lev-la. Jenna recusou o convite, alegando vagamente que tinha tarefas acumuladas.
-        Que tarefas? - questionara Katie.
Jenna fizera um gesto vo.
- Oh... voc sabe. Coisas para colocar em dia. Escrever para minha me, consertar algumas roupas... no tenho nada decente para vestir na segunda-feira. Arrumar 
meu quarto...
- Lavar os cabelos? - acrescentou Katie, ctica.
- Isso tambm. - Jenna sorriu sem graa. - Tive uma semana atarefada no trabalho e estou com um pouco de dor de cabea. Por mais que ame todos vocs, no me sinto 
animada.
Katie deu de ombros.
- Imagino que sejamos um fardo, se estiver se sentindo indisposta. Vai ficar bem sozinha?
- Claro. E s uma dor de cabea, nada mais.
  Jenna tomou uma aspirina e se acomodou no sof com uma pilha de roupas para consertar. Ouviu o carro de Marcus parando na rua e Katie se apressando a seu encontro. 
O irmo mais velho no gostava de esperar.
- At! - despediu-se Katie.
- D um beijo em todos - pediu Jenna. Ouviu vozes e a batida da porta do carro.
Para sua surpresa, minutos depois, a campainha tocou. Marcus estava na pequena varanda.
-        Katie disse que no est se sentindo bem.
  Ele parecia mais alto do que o normal, uma figura macia que a luz fraca de trs destacava.
-         s uma dor de cabea...
-  verdade ou  uma desculpa?
Jenna suspirou.
- Que importa?  verdade, mas no precisa se preocupar.
- Posso fazer algo por voc?
- Tomei uma aspirina, obrigada.
Ele hesitou, em dvida.
- Sabe onde estamos, se precisar.
- Claro, mas no vou precisar.
  Marcus deu meia-volta. Jenna permaneceu  porta at o carro desaparecer de vista.
  Jenna arrumava as roupas no armrio no sbado  tarde quando a campainha tocou. Teve de abrir caminho em meio a sapatos, botas, pares de meia e caixas com tralhas 
variadas. Espanou o p da blusa solta e do short velho, e tentou arrumar os cabelos rebeldes que se haviam soltado da presilha.
  Quando ela abriu a porta, Marcus j estava para tocar a campainha novamente.
- O que faz aqui? - Jenna imaginara que Marcus, tendo de levar Katie, tambm passaria o fim de semana na casa dos pais.
- Ol para voc tambm - replicou Marcus. Como ela no se mexia, alfinetou: - No vai me convidar para entrar, Jenna?
Ela deu passagem e fechou a porta. Passaram  sala.
-        O que voc quer? - indagou Jenna, sem rodeios.
Marcus a olhava com ateno especial, concentrando-se no rosto como se tentasse ler um texto implcito.
  -        Uma bebida cairia bem - declarou. - Voc parece melhor. E a dor de cabea?
-        Foi-se. Caf, cerveja, limonada? So as nicas opes, lamento.
Marcus optou pela cerveja e a acompanhou at a cozinha. Jenna preparou cerveja com limo para si mesma tambm, e voltaram para a sala.
- Foi Katie quem mandou voc aqui?
- No.        
  Ele esperou Jenna se sentar numa das duas espreguiadeiras de conjuntos diferentes antes de ocupar o sof.
  Jenna viu-se sem assunto, e Marcus no parecia interessado em conversar. Aps saborear a cerveja, ele limpou a espuma do lbio sem sequer olhar para ela. Quando 
o fez, parecia crtico.
-        Katie acha que voc est emagrecendo.
  A blusa solta escondia a silhueta, mas o escrutnio deixou-a constrangida.
- Que nada. S ando trabalhando muito. - Mantinha-se ocupada para no ter tempo para pensar... nem lamentar. E para esconder de Katie os sentimentos... talvez no 
to bem.
- H outras maneiras de esquecer, alm de trabalhar at a exausto - considerou Marcus. - Maneiras mais.agradveis.
- Acho que no me dei bem com a garrafa.
- No estava pensando nisso.
  Ele a fitava de um jeito... Jenna enrubesceu. Pensou em fingir que no entendia do que ele falava, mas seria intil.
  Felizmente, Marcus no parecia querer uma resposta. Quando ele se levantou, Jenna ficou tensa, mas ele foi  janela e olhou para fora como se procurasse algo de 
interesse. Ento, voltou-se, segurando o copo de cerveja pela metade.
  Jenna notou os dedos dele brancos, mas a expresso era impassvel. Ele tomou mais alguns goles de cerveja. O pescoo era firme e levemente bronzeado, com pomo-de-ado 
no to proeminente, porm detectvel  medida que ele ingeria o lquido.
Ele baixou o copo.
- Nunca pensou em outro homem alm de Dean, no ?
- Seriamente, no. - Jenna reconhecia a existncia de outros rapazes atraentes, mas at pouco tempo atrs, considerara-se comprometida. Assim, nenhum relacionamento 
se aprofundara... por que ela no permitira.
-        Voc no pode ficar com ele - informou Marcus.
Jenna empalideceu e ergueu a cabea.
  -        No precisa me dizer isso. - No era como se ela tentasse roubar Dean de Callie. At j se afastara para no revelar a dor e a decepo.
- Ento, h algum em vista?
Jenna arregalou os olhos.
- Mas nem houve tempo para isso!
- Voc conhece outros rapazes.
- Claro que sim. Amigos.
- Amigos podem se tornar amantes.
- No preciso de amante!
  Marcus sorriu misterioso. Jenna sentiu um, arrepio na espinha ante o brilho nos olhos dele.
-        Tem certeza? Podia ter me enganado... na noite da festa.
  Ela recordou o momento de insanidade temporria, em que considerara sugerir a ele que fossem para a cama. Talvez ele tivesse percebido.
- Eu no devia ter bebido tanto vinho...
Ele acabou a cerveja num gole.
- Talvez precise mais de um amigo, agora.
-        Com certeza, no estou pronta para... para mais nada!
  Marcus aproximou-se para pousar o copo vazio na mesinha diante dela, e teve de abrir espao em meio s revistas, correspondncia velha e uma vasilha com restos 
de batata frita. Endireitou-se, enfiou as mos nos bolsos da cala e estreitou o olhar.
- Sempre reage daquela forma aps duas taas de vinho?
- Daquela forma? Quer dizer... me atirando ao primeiro homem que aparece? No. E gostaria que no ficasse repisando o assunto.
Ele instalou-se no sof, sorrindo e desarmando-a completamente.
- No estou querendo aborrecer voc. Ns nos conhecemos h tanto tempo, Jenna. Odeio ver voc infeliz.
- Como voc mesmo disse... vou superar - respondeu ela, tentando acreditar no fato.
- Ento, deixe-me ajudar.
- Como?- questionou Jenna, desanimada. - O que pode fazer?
- Posso lhe oferecer uma vida social separada da de minha famlia, para comear.
- Tenho outros amigos.
- Mas Katie conhece a maioria, no ?
- Sim. - Mesmo as pessoas que elas conheciam separadamente tendiam a se tornar amigos mtuos. Gostavam das mesmas pessoas.
Marcus completou:
- E Katie trar Dean e Callie para esse crculo. Voc precisa romper com isso, se pretende viver a sua prpria vida.
- No sou dependente da sua famlia para nada. - Jenna at sara ocasionalmente, porque Katie, quando namorava, preocupava-se com o fato de Jenna ficar sozinha em 
casa.
- No faria mal alargar o seu horizonte.
- Voc me acha estpida e limitada. - Jenna sentiu-se indignada e no procurou disfarar.
Marcus riu.
  -        Em absoluto. Mas existe um mundo l fora que nem comeou a explorar. E gostaria de lhe mostrar.
Talvez ela tivesse denunciado suas dvidas.
-        Vamos, Jenna - incentivou ele. - O que tem a perder?
-        Por que faz isso? - indagou ela. - O que ganha?
Ele lhe lanou um olhar demorado e avaliador.
  -        Estou ajudando uma amiga. E acho que pode ser muito... recompensador.
-        Nunca pensei que fosse um bom samaritano.
Marcus ergueu o sobrolho.
- No estou querendo um halo. Mas algo muito mais... contemporneo.
- Como o qu?
Ele sorriu perspicaz.
-        Vamos dar um passo de cada vez, sim?
  Jenna mexeu-se inquieta e terminou sua cerveja com limo. Sentiu um estmulo, algo como ansiedade. Afinal, o que tinha a perder? Exceto o tempo gasto imaginando 
e desejando o que poderia ter sido. Nunca fora dada a autopiedade.
-        Est bem - concordou. - Vamos l.
Marcus no se mexeu, mas Jenna teve a impresso de que ele suspirou aliviado.
- Otimo. O que gostaria de fazer esta noite?
- Esta noite?
- Um cinema... um show... um jantar? Que tal um clube de comdia? E bom dar umas risadas.
- Acho que sim - concordou ela, e deu de ombros, j arrependida. Mas procurou se animar. - Sim. Parece divertido.
Ele se levantou.
-        Eu a pego por volta das sete horas.
  Jenna o acompanhou at a porta. Marcus voltou-se, ergueu a mo e a acariciou no rosto com o polegar.
  -        No fique to preocupada - repreendeu. - Vai ficar tudo bem, eu prometo.
  O mais idiota, pensou Jenna ao fechar a porta, era que acreditava nele.
  Jenna realmente deu boas risadas. Nem todos os quadros eram realmente engraados, mas havia comediantes talentosos que divertiram a plateia. Ela nunca vira Marcus 
rir tanto.
  Depois das apresentaes, saborearam um lanche e uma bebida e, ento, ele a levou para casa, deixando-a na porta com um beijo rpido no rosto.
- Vou pegar Katie amanh - comentou ele. - Acho que no quer vir junto...
- No. - Era um alvio poder ser franca. No queria ver Dean e Callie novamente, no queria ter de fingir que no se importava. Com Marcus, no tinha de lanar a 
nuvem de fumaa.
- Achei que no - retrucou ele. - Eu telefono.
E telefonou, menos de uma semana depois. Katie atendeu e avisou:
-        Marcus quer falar com voc.
  Jenna continuava indiferente aos programas que ele arranjava. Um amigo lhe emprestara um iate para o fim de semana seguinte, e o plano era passarem uns dois dias 
velejando no golfo Hauraki.
- Gostaria muito que fosse...
- S eu? - questionou Jenna.
- Sabe que Katie no combina com o mar.
  Ainda na universidade, Marcus comprara, por uma ninharia, segundo ele, um pequeno barco mal-conservado. Passara os finais de semana seguinte estudando tcnicas 
de manuteno e conserto de barcos, pondo mos  obra com a ajuda ocasional dos irmos gmeos e de Jenna.
  Dean e Jenna aprenderam a atuar como marujos, regulando as velas, e adoraram, mas Katie passava a maior parte do tempo debruada na mureta, at que Marcus ficou 
com d e a levou de volta a terra firme. Katie nunca adquiriu estmago de navegadora e, aps vrias tentativas, desistiu. Marcus vendeu o barco ao viajar para a 
Inglaterra.
  -        Ele vai pegar um barco emprestado no fim de semana - contou Jenna a Katie, aps desligar. - Ele precisa de algum para fazer a tripulao.
Katie deu de ombros.
-        No admira ele querer falar com voc. 
Zarparam no sbado de manh, um dia perfeito, com uma brisa moderada que inflava as velas e espalhava as poucas nuvens que pairavam sobre o vulco Rangitolo, no 
golfo.
  O ar limpo, o vento nos cabelos, o som da gua sob o casco enquanto singravam a superfcie esverdeada proporcionavam um bem-estar maravilhoso. Jenna ajustava as 
velas, tomava o leme, obedecia s ordens sucintas de Marcus. No se sentia to viva havia semanas... talvez anos.
  Ancoraram na baa protegida de uma ilha de topografia em parte suave, em parte rochosa, com ovelhas brancas pastando pacficas nas plancies verdes naturais. Jenna 
estava toda dolorida, queimada de sol, mas quase feliz.
  Jogaram-se na gua limpa e fresca. Marcus nadava em estilo livre, dando braadas potentes. Jenna flutuava preguiosamente e, s vezes, mergulhava at o fundo arenoso. 
Encontrou pedaos de conchas de tons alaranjados e dourados descansando no fundo e peixinhos coloridos fugindo da invaso humana, agitando as nadadeiras.
  Mais tarde, Jenna enxugou os cabelos e prendeu uma toalha na cintura sobre o maio. Marcus vestira um short.
  -        Como se queimou! - Marcus passou um dedo em seus ombros desnudos, pegajosos devido ao sal da gua. - Espere um pouco.
Ele desceu at a cabine e voltou com um frasco plstico rosa.
- Devia usar mais protetor solar - censurou.
- Pensei ter passado bastante.
Marcus certificou-se de que ela usasse um chapu, firmando-o bem na cabea quando o ventou ameaou lev-lo embora.
-        Isso deve ajudar.
  Jenna estremeceu ao sentir o creme gelado na pele quente. Marcus espalhou o filtro em seus braos e nas costas. A massagem era prazerosa e perturbadora. Jenna 
sentia arrepios.
-        Vire-se - ordenou ele.
  Jenna obedeceu, e ficaram frente a frente. Jenna sentiu os mamilos se enrijecerem e prendeu a respirao.
  -        Tome. - Ele lhe passou o frasco. - Voc mesma pode aplicar na frente.
Ela pegou o protetor solar, e ele se afastou indagando:
-        Est com fome?
  Estava faminta, percebeu Jenna, enquanto espalhava filtro solar no peito. Tambm sentia o corao disparado e tentou se controlar.
  -        Seria capaz de devorar uma ovelha inteira... na falta de um cavalo.
Marcus riu, e a tenso entre eles diminuiu.
  -        No seramos populares por aqui. Acho que  proibido acender fogueira na praia, mas podemos grelhar linguias na cozinha e jantar no convs.
  Enquanto Marcus preparava a carne, Jenna fez a salada e fatiou um po. Marcus pegou copos e uma garrafa de vinho que deixara no frigobar.
  Jenna fitou a taa desconfiada quando Marcus a serviu. Sentados no convs, que balanava levemente, assistiram ao pr-do-sol tingindo o cu de rosa e o mar de 
dourado.
  -        Prometo que no vou deixar voc se embriagar - declarou Marcus. - Devia saber, a esta altura, que prefiro minhas mulheres cientes do que esto fazendo.
- Suas mulheres?
Ele pigarreou.
- Figura de linguagem.
- Sou sua tripulao - observou Jenna.
Ele sorriu.
- No quero minha tripulao bbada, tampouco. Ameaa a disciplina.
- Houve... muitas mulheres? - Jenna no devia perguntar, mas as palavras saram antes que pensasse. - Quero dizer...
- Sei o que quis dizer. - Marcus ficou pensativo, e ela imaginou se estaria fazendo um rpido clculo mental. - Muito poucas, para dizer a verdade - afirmou. - Quer 
um nmero exato?
- No - respondeu ela. - Nem sei por que perguntei. No devia...
- Perguntou porque queria saber.
  Ele parecia quase satisfeito com a curiosidade dela. Pegou o garfo e apontou para o prato.
-        Coma antes que esfrie.
CAPITULO VI

Permaneceriam ancorados ali durante a noite e dormiriam num beliche estreito, a poucos centmetros um do outro, na cabine. Marcus instruiu Jenna a descer na frente. 
Quando ele chegou ao beliche, vinte minutos depois, ela j estava no saco de dormir.
- Quer que deixe a luz acesa? - indagou ele.
- No. Mas no me importo se quiser deixar acesa.
Ante o olhar provocante, ela acrescentou rpido:
- Quero dizer, se quiser ler ou algo assim... Marcus apagou a luz e Jenna ouviu o farfalhar de suas roupas ao se despir, bem como o beliche ranger com o peso masculino.
- Foi um dia bom? - indagou ele, baixinho.
- Sim - respondeu Jenna. - Obrigada, Marcus.
O beliche rangeu novamente quando ele mudou de posio.
  -        No precisa me agradecer. Eu me diverti tambm, e estou ansioso por amanh.
  Talvez Marcus tambm precisasse espairecer. Uma vez, Katie perguntara por que ele no tirava mais folgas, e ele explicara que ningum permanecia no topo mandriando. 
Alm disso, gostava de estar a par dos negcios, em vez de contratar um administrador.
  Tomaram caf bem cedo e partiram da enseada. Jenna vestira uma camiseta, para no agravar as queimaduras, e Marcus certificou-se de que ela renovasse o filtro 
solar de hora em hora. At insistira em lhe aplicar mais creme nas costas enquanto ela estava s de toalha, antes de se vestir.
  Quando ancoraram para almoar, ele pegou o frasco rosa novamente.
- Tire a camiseta - ordenou.
- No estou usando nada por baixo! - protestou Jenna. As alas do suti irritavam sua pele sensibilizada.
  A nica embarcao visvel era um veleiro deslizando na linha do horizonte. Marcus suspirou entediado.
  -        Esconda a frente enquanto eu passo o filtro nas suas costas  - instruiu, paciente.
  Jenna estava sendo pudica, mas no se expunha desnuda desde que tinha dez anos. Provavelmente, sentia-se mais tmida diante de Marcus do que se sentiria com um 
estranho.
  Cruzou os braos enquanto ele puxava a barra da camiseta at os ombros, e estremeceu ao contato com o creme gelado.
- Desculpe-me - pediu Marcus.
- No... A sensao  boa.
  Marcus riu e espalhou o creme devagar sobre a pele. Espremeu mais filtro na mo e aplicou-o no ombro, massageando-a ao mesmo tempo.
- Considerando que tem uma foto na qual estou nu... sinto-me logrado aqui.
- ramos crianas. - Ela e Katie, ao menos.
  Ele no respondeu e continuou massageando o ombro dela, a palma deslizando sobre a pele quente.
  Jenna fechou os olhos. Ele dedicou-se ao outro ombro e ento se concentrou de novo nas costas. Por alguns segundos, cessou o movimento, mantendo as mos sobre 
as omoplatas. Jenna sentia o calor do sol na cabea^-ouvia a gua do mar contra o barco e a respirao suave de Marcus a lhe agitar os cabelos finos da nuca.
  Quando percebeu que ele roava os lbios de leve na pele atrs de sua orelha, sentiu o corpo se eletrizar.
Ento, ele se afastou.
-        Pronto - avisou, baixando a camiseta.
  Jenna acabou de ajeitar a pea e se voltou, mas ele j estava de costas, guardando o frasco de filtro solar.
  Escurecia quando estacionaram diante do prdio de apartamentos. Katie os recebeu  porta de casa e insistiu para que Marcus ficasse para o jantar.
  Aps a refeio, continuaram  mesa, conversando ao sabor de um bom vinho e depois, de caf. J era bem tarde quando Marcus afastou a cadeira.
  Jenna bocejou e levantou-se tambm. Franziu o cenho quando suas costas roaram no espaldar da cadeira.
- O que foi? - indagou Katie.
- Uma queimadura leve de sol.
- Tem algo para isso aqui? - indagou Marcus.
- Sim, calamina - respondeu Jenna.
- Katie vai ajud-la. - Ele se voltou para a irm. - Ela precisa passar algo nas costas.
  Katie aplicou-lhe a pomada antes de se recolherem, e novamente na manh seguinte. Marcus telefonou para Jenna  noite.
-        Como est a queimadura?
- Melhorando. Mas valeu a pena.
Ele riu.
- Quer repetir?
- A queimadura?
- Sabe do que estou falando.
- Velejar?
- No necessariamente...
Ela no respondeu, e ele pressionou, impaciente:
-        Um encontro, Jenna.
Ele nunca usara essa palavra antes.
-        Em que estava pensando? - indagou Jenna.
  -        Se estiver livre, podemos ir ao cinema manh  noite. - Ele fez pausa. - Traga Katie tambm, se quiser.
  Katie, que atendera e lhe passara o telefone, reagiu com surpresa ao convite, o qual declinou.
  -        Esqueci de lhe avisar: Dean e Callie viro aqui. Dean tem outra entrevista para emprego e Callie vai procurar um lugar para eles morarem na cidade. Vo 
encerrar o dia jantando aqui. Mas no h motivo para voc no ir. Divirta-se.
  Marcus levou-a para casa depois do filme e reconheceu o automvel estacionado diante do prdio.
- Quer que eu entre?
- Tenho certeza de que Dean e Callie gostariam de v-lo. - Saltaram, e Jenna esperou enquanto ele trancava a porta do carro.
- Sabia que eles estariam aqui hoje?
- Deveria? - Ele a enlaou pela cintura e devagar seguiram ao apartamento.
- Estava imaginando se me convidou para sair hoje apenas para ser gentil.
  Pararam na entrada. Estava escuro, pois a luz da iluminao pblica no chegava at ali.
  -        Eu a convidei para sair porque queria passar um tempo com voc - esclareceu Marcus. - Esperava que aceitasse pelo mesmo motivo.
- Claro que sim - declarou Jenna. - Quero dizer, gosto de sair com voc, Marcus.
- Fico contente em saber. E  mtuo. Ento... pare de pensar em si mesma como objeto de minha caridade pessoal.
  No apartamento, encontraram Dean com o brao ao redor de Callie no sof, defronte a Katie numa das poltronas antigas.
  Aps os cumprimentos, Jenna serviu caf para si mesma e para Marcus. Ele insistiu para que ela ocupasse a outra poltrona e sentou-se no brao, apoiando a mo no 
espaldar s costas dela.
- Como foi a entrevista? - indagou Jenna a Dean.
- Acho que j garanti a vaga. - Ele parecia satisfeito consigo mesmo. - E Callie encontrou um timo apartamento hoje. Se eu conseguir o emprego, poderemos alug-lo.
- J marcaram a data do casamento?
- Ainda no. - Dean olhou para a noiva. - Callie quer que os pais estejam aqui.
Marcus contemplou o jovem casal.
-        Claro que eles tm de vir.
-        Mas no estamos com pressa - assegurou Callie.
Conversaram mais um pouco e, ento, Dean achou que estava na hora de irem. Marcus levantou-se tambm e, na sada, Callie sugeriu animada:
- Por que no samos todos juntos um dia? Ns cinco.
Dean e Katie concordaram na hora.
- Boa ideia!
Marcus ergueu o sobrolho para Jenna, que esboou um sorriso.
-        Seria divertido...
Katie voltou-se para o irmo mais velho.
-        Marcus?
  -        Ns gostaramos, sim. - Ele enganchou o brao casualmente ao de Jenna.
Os irmos gmeos reagiram admirados. Callie chamou a ateno do noivo:
-        Dean?
  Ele desviou o olhar do irmo mais velho, que de repente parecia to ntimo de Jenna.
-        Hein? Ah, vamos...
Marcus desvencilhou-se e beijou Jenna rapidamente na boca.
-        Boa noite.
  Katie fechou a porta e voltou-se, obviamente morta de curiosidade. Jenna deu de ombros e respondeu  pergunta no formulada.
-        Somos... amigos. Estamos saindo, de certa forma...
-        O que aconteceu no fim de semana no iate? - indagou Katie, direta.
-        Nada! Juro que no.
Katie parecia fascinada.
- Sabe, s vezes eu achava que Marcus tinha um fraco por voc, depois que ele voltou da Inglaterra. Ele a observava quando pensava que ningum estava prestando ateno. 
Eu o encostei na parede uma vez, mas ele riu e lembrou que voc e eu tnhamos a mesma idade, e que sempre tinha considerado voc como irm. E voc nunca disse nada... 
teria dito, no ? Quero dizer, se ele tivesse se insinuado...
- Ele no insinuou nada. Somos amigos - repetiu Jenna. No foi o que ele dissera? Que ela precisava de um amigo?
- Claro. - Katie no parecia muito convencida. - S amigos. 
Comemoraram o novo emprego de Dean num restaurante turco que Katie descobrira quando estava saindo com seu ltimo namorado.
  Em vez de cadeiras, ocuparam um tipo de sof baixo e curvo. Katie e Callie riram ao se ajeitarem no estofamento de veludo entre almofadas de seda.
Callie puxou o noivo para seu lado.
- Isto aqui  maravilhoso! To diferente...
- Vai haver dana do ventre, depois - informou Katie. - Os rapazes vo gostar.
  Pediram pratos exticos e partilharam os pedidos para experimentar o mximo possvel da cozinha turca.
  Marcus ofereceu a Jenna algo escuro e parecido com ameixa, segurando-o entre o indicador e o polegar.
- O que ? - indagou ela.
- No fao a mnima ideia, mas  bom. Talvez um figo. - Realmente, era delicioso. Marcus observou-a e inesperadamente passou o polegar em seu lbio inferior, enxugando 
o suco que escorrera.
  Instintivamente, Jenna lambeu o polegar dele, para no perder nada aquele sabor adocicado e saboroso. Fitaram-se, e Jenna sentiu uma pontada de excitao sexual.
  Os olhos de Marcus obscureceram-se, um msculo sobressaltando-se no maxilar. Ele pousou o brao no encosto do sof, quase lhe tocando os ombros.
-        Gostoso?
  Jenna no conseguiu responder, e apenas assentiu, sem jeito. No se lembrava de um dia estar to ciente de outro ser humano. 
  Quando Marcus se inclinou sobre a mesa em busca de outra guloseima para tent-la, Jenna protestou:
  -        Eu mesma escolho agora, obrigada. J me sinto mal de tanto
comer...
  Marcus sorriu. Era um sorriso conhecedor, como se soubesse o que lhe provocava. Naquele instante, todas as luzes se apagaram, num prenncio de que a apresentao 
de dana iria comear. Marcus recostou-se nas almofadas e fechou a mo no ombro delicado de Jenna, trazendo-a para perto.
  Uma danarina aproximou-se e rebolou para Marcus ao som da msica extica. Ele sorriu, mas manteve-se distante. Katie e Callie provocavam Dean, que fingia estar 
hipnotizado.
  Finda a noitada, Marcus levou Jenna e Katie para casa, recusando o convite da irm para tomar um caf.
Katie entrou e deixou a porta encostada. Marcus riu.
- Minha irmzinha tentando ser sutil.
Jenna enrubesceu.
- Eu disse a ela que somos apenas amigos.
- Disse?
- E no somos...
  -        Eu sei o que disse. - Ele lhe tomou o rosto nas mos. - Mas, um dia, pretendo fazer amor com voc, Jenna.
Ela perdeu o flego.
- Est sendo otimista, no? Eu nunca disse que queria dormir com voc. Nem sei se quero.
- No h pressa. - Ele a fitou detidamente. - Qual  o problema?
- Um passo de cada vez.
- Sim. O que significa ir para a frente. Sou um homem paciente, Jenna. Mais do que imagina, mas no vou marcar passo para sem pre. Viver de esperanas e sonhos no 
 o meu estilo.
  Sem esperar resposta, ele a beijou rapidamente na boca e foi embora.
  Katie arranjara um novo namorado, Jason. Dean e Callie deram uma festa para inaugurar o apartamento em que iam morar depois de casados, e Jason levou Katie e Jenna, 
embora Marcus tivesse oferecido carona.
  Ele estava l, claro, assim como os pais. Jenna conhecia a maioria dos convidados e conseguiu fingir que se divertia.
  Ainda havia poucos mveis no apartamento, e alguns casais danavam na sala. No meio da festa, o telefone tocou, e Callie se recolheu a um dos quartos para conversar 
com os pais.
  Dean aproximou-se de Jenna.
- Minha noiva me abandonou temporariamente. Vamos danar?
Ela no pde recusar, e eles se misturaram aos outros casais.
- Divertindo-se? - indagou Dean.

-  uma bela festa. - Os outros convidados, ao menos, deviam pensar assim.
- O que h entre voc e o velho Marc?
- O que Katie andou lhe dizendo?
- Ela acha que est acontecendo algo.
-        Que lhe importa?
Ele riu.
- Acho que s quero que todos que amo sejam to felizes quanto eu.
- Que gentil.
- Sou um bom rapaz - afirmou Dean, nada modesto, executando uma ousada manobra de dana. - No concorda?
  Jenna concordava. Dean era cego para muitas coisas, mas um bom rapaz, merecedor da felicidade. Pela primeira vez, Jenna sentiu-se genuinamente contente por ele.
- Est mesmo apaixonado por Callie?
- Sou louco por ela. Obrigado, Jenna, por ter me mandado para os Estados Unidos.
- Eu? Mandado voc?
- Tinha razo, era uma oportunidade nica e no podia deixar passar. No que imaginasse conhecer algum como Callie... - Ele sorriu, quase constrangido, - Lembra-se 
de quando ramos crianas e prometemos nos casar?
Jenna sentiu um n na garganta e assentiu.
- Voc foi a primeira garota que beijei.
- Voc foi o primeiro garoto...
- Sim, eu sei. Quando estvamos na universidade, me perguntava se acabaramos juntos. Mas, claro, voc nem pensava nisso.
- Voc acha?
- Foi to taxativa para que eu aceitasse a bolsa de estudo. Bem... nunca teria me deixado partir por quatro anos se pensasse seriamente em mim - concluiu Dean, racional, 
e riu novamente.
- Agora, mal suporto ficar sem Callie por quatro minutos!
  Um exagero, claro. Mas, quando Callie saiu do quarto com os olhos vermelhos, Dean pediu licena e foi direto abra-la.
  Ainda confusa com as revelaes de Dean, Jenna foi para junto dos Crossan e de Marcus. Por volta da meia-noite, os Crossan foram embora, e Marcus prontificou-se:
- Posso levar voc para casa quando quiser. Katie parece disposta a ficar at o fim. - Observou a irm danando com o namorado. - O que acha desse Jason?
- Parece gentil. Eles tm o mesmo senso de humor, mas ainda no se conhecem bem. Ele estava nervoso com a perspectiva de conhecer a famlia.
- Somos assim to formidveis?
- Voc  - afirmou Jenna, involuntariamente. - Acho que, quando crianas, os gmeos e eu tnhamos mais medo de voc do que de seus pais.
- Nunca ergui um dedo para vocs.
- No, s que voc era grande e... de algum modo, sempre pareceu...
-        Autoritrio?
Jenna riu.
- Acho que sim. Voc se sentia responsvel por ns, no ? Protetor?
- Vocs eram to menores... - Marcus parecia triste com a lembrana.
-        Mas somos todos adultos agora. - Jenna olhou para Katie.
Marcus olhou para a irm tambm, mas voltou a se concentrar nela.
Jenna perturbou-se com o olhar.
  -         o que espero. - Marcus esvaziou seu copo de bebida. Vendo que Jenna j acabara com seu refrigerante, convidou: - Vamos danar. - Tirou-lhe o copo e 
o deixou com outros numa mesinha.
  Algum aumentara o volume do som e, para conversar, as pessoas tinham de se achegar, ou gritar para se fazerem ouvir.
  Justamente quando Marcus e Jenna tomavam posio no meio da sala, a msica danante foi substituda por outra, lenta.
  Alguns casais deixaram a pista e foram tomar uma bebida, outros se abraaram e passaram a se movimentar ao sabor da melodia.
  Marcus envolveu Jenna com o brao, e ela automaticamente apoiou as mos nos ombros fortes. Ao fit-lo, percebeu o quanto estava melanclico, os olhos obscurecidos, 
e enigmticos.
  Entreolharam-se por um longo tempo, flutuando  melodia suave, quase parados no mesmo lugar. Ento, Marcus encaixou a mo pouco acima da ndega dela, aproximando-a. 
Ela se arrepiou ao contato da testa com seu queixo spero, com a barba despontando.
  Jenna imaginou se ele sentia seu pulso acelerado, e se seu cheiro seria to inebriante quanto o dele lhe parecia. Marcus exalava masculinidade e excitao, misturados 
a perfume de sabonete e roupas com amaciante.
  Quando trocaram a msica lenta por um ritmo mais acelerado, Marcus indagou.
-        Quer ir para casa?
  Jenna ficou tensa com o pnico que sentiu. Desvencilhou-se, o olhar baixo.
- Se j se cansou da festa, agradeceria uma carona, sim.
Covarde, provocou uma voz interior, que ela tentou ignorar.
- Vamos, ento - decidiu Marcus.
Jenna ousou fit-lo. Ele tinha a expresso bastante controlada. Fora, estava mais fresco. Jenna optara por um vestido leve e sentiu frio a caminho do carro de Marcus.
-        No trouxe um agasalho? - indagou ele.
  -        No achei que ia esfriar. No se preocupe, no carro  mais quente.
  Era um trajeto de dez minutos, e Marcus no falou nada at estacionar diante do prdio e acompanh-la at o apartamento.
  Jenna abriu a porta e procurou o interruptor. As luzes espantaram a escurido, e Marcus fechou a porta.
- Est tarde - comentou ela.
- No tarde demais... - Marcus a segurou pelo brao e fez se voltar. - Do que tem medo?
-        No estou com medo.
Marcus riu.
  -        E o que declarava quando Dean a desafiava a fazer alguma travessura. Estou surpreso por ter sobrevivido  infncia. - Fez pausa e percebeu que ela concentrava 
o olhar na frente de sua camisa social. - Olhe para mim, Jenna.
Ela respirou fundo e ergueu o olhar. Marcus a avaliava, srio. Jenna engoliu em seco e, quando falou, a voz saiu rouca:
-        O que voc quer, Marcus?
Ele sorriu.
  -        Se  realmente adulta, no mais a garotinha, sabe o que quero.
  Jenna arregalou os olhos ante o desafio impertinente. O problema era que no confiava nas prprias reaes a ele. Era tudo novo demais, perturbador demais. Com 
certeza, irreal.
  -        Uma mulher que passou anos apaixonada por um homem no pode simplesmente esquecer, em poucas semanas, mesmo... mesmo sentindo desejo por outro. - Jenna 
podia admitir, Marcus j devia at saber.
- Desejo? - questionou ele. -  assim que chama?
Jenna afastou-se.
- Voc  um homem atraente, Marcus, deve saber disso.
- Obrigado. Mas?
  Era difcil explicar aqueles sentimentos contraditrios de fascinao fsica e rejeio emocional, em meio a pensamentos caticos.
- Mas voc  o mais prximo de um irmo mais velho que jamais tive...
- No sou seu irmo!
Marcus rejeitava o papel implcito, e o fato a inquietava.
  At recentemente, soubera que posio cada Crossan ocupava em sua vida, e qual ela mesma ocupava na deles. Entretanto, desde que Dean retornara com a noiva a reboque, 
as relaes vinham se alterando radicalmente. Ela no tinha mais lugar no corao de Dean, que sempre imaginara seu. Com Katie afeioando-se  futura cunhada, a 
consequncia inevitvel era se sentisse excluda. At j procurara se afastar um pouco do crculo familiar, pois no era masoquista. Agora, Marcus queria ser seu 
amante!
- Tudo est mudando - desabafou Jenna, relutante em admitir o quanto isso a assustava. Era como voltar ao pesadelo de infncia, quando as pessoas que amava desapareciam 
de repente ou lhe da vam as costas, a familiaridade virava estranhamento e perda.
- A vida  assim, jJenna - explicou Marcus. paciente. - As coisas mudam. No pode se isolar, a princesinha solitria em sua torre. Todos seguem em frente, deixam 
o passado para trs, agarram as oportunidades, aceitam riscos, fazem novas amizades. Fazem amor.
- Mas eu no quero...
- Quer! - Ele avanou um passo, e ela recuou involuntaria
mente. Ento, viu-se contra a parede, com Marcus enorme diante dela, encurralando-a contra a parede. - Voc quer, sim. Acaba de admitir que me quer.
-        No me pressione, Marcus!
Ele nem a tocava.
- Estou tentando acordar voc, Bela Adormecida. Lutando contra a cerca de espinhos que cultivou ao redor de seus sonhos. Diga-me, Dean pelo menos a beijou alguma 
vez?
- Sim, beijou! - afirmou Jenna, revoltada. - Vrias vezes.
  O primeiro beijo foi uma experincia desajeitada, quando tinham treze anos, causando mais constrangimento do que prazer. O ltimo foi demorado, terno e comovente, 
antes de Dean partir para os Estados Unidos. 
  Agora, Jenna dava-se conta de que, o que ela vira como promessa, ele vira como despedida, porque, na vida real, o componente romntico do relacionamento de quase 
uma vida no sobreviveria por quatro anos.
  Marcus mexeu o maxilar, tenso. Jenna sentia-se perversamente satisfeita por ter lhe desferido um golpe.
-        Mas nunca dormiram juntos - apostou ele.
  Como ele podia saber? Ela continuou teimosa, e ele estreitou o olhar, avaliando-a.
- Nunca dormiu com ningum, no ? - especificou, gentil.
- No espera que eu responda!
Imperdoavelmente, Marcus riu.
- No precisa, virgenzinha - provocou. - Est estampado no seu rosto. - Abrandou a voz. - Talvez eu devesse ter levado isso em conta. Mas, se esteve se guardando 
para Dean, o que vai fazer
agora?
- No vou dormir com o primeiro homem que passar! - disparou Jenna.
Ele contraiu os lbios.
- Eu no sugeri isso.
- Voc disse que queria fazer sexo comigo.
  Ele franziu o cenho. Jenna imaginou se ele ia dizer que ela entendera mal.
- Eu quero fazer amor com voc - confirmou Marcus, cauteloso. - E voc tambm quer.
- Eu no te amo! - gritou ela. - No do"jeito que amo... amava Dean. - No era amor aquele desejo, aquela necessidade fsica
que s vezes a deixava desesperada. Era algo primitivo. Assustador.
Afastou tais pensamentos, sem querer examinar as implicaes.
Marcus estreitou o olhar.
- Pretrito... ou presente? Supere, Jenna. Dean est comprometido com Callie. Ele est perdidamente apaixonado por ela.
- Eu sei! - Havia angstia na voz dela. - J me conformei com isso. 
- Ento, por que no aceita o que ofereo? - Sem aviso, Marcus a arrebatou.

CAPTULO VII
Foi estranho, igual e ao mesmo tempo diferente das outras vezes que Marcus a beijara. O mesmo arroubo de prazer, inesperado e assombroso, invadindo seu corpo.
  Mas surgiu outro elemento mais ertico, quando ele a provocou com a lngua... uma aspereza que era nova e alarmante, como se Marcus estivesse determinado a afastar 
todos os seus pensamentos, as inseguranas.
Jenna inclinou a cabea para trs, e ele a amparou-a pelos ombros.
  Marcus parecia disposto a lhe demonstrar uma sexualidade sem amarras, diferente da considerao e ternura que aplicara antes.
  No que a machucasse, ele era habilidoso demais para isso... mas no eram mais carcias gentis, confortadoras... ele a explorava passionalmente. Era uma revelao 
sexual primitiva. Sentia-se desavergonhadamente assaltada.
  A princpio, ficou chocada, tanto por sua prpria resposta instantnea quanto pelo poder dos braos de Marcus, abraando-a e beijando-a quase a ponto da agresso.
  Ento, sentiu o sangue ferver, e a desinibio dele transferiu-se para ela. Retribuiu ao beijo irresponsavelmente, faminta, ansiosa, querendo prov-lo. Arqueando 
o corpo, permitiu que Marcus a levasse a outro plano de excitao.
  Agarrou-se ao pescoo dele e sentiu os msculos tensos sob as palmas.
  Marcus a encostou na parede e lhe apalpou os seios, despudo-radamente possessivo. Ela j no sentia o corpo como seu, mas como um instrumento de prazer despertado 
pelos beijos e carcias. Marcus encontrou uma passagem pelo vestido e lhe tocou a pele... e ela estremeceu de prazer.
Marcus ergueu a cabea, ofegante.
- Jenna... isso  tortura. Precisamos de uma cama.
Oh, sim!, concordou ela em pensamento, e ele se afastou, deixando um espao frio entre ambos. No entanto, ele mantinha as mos sobre ela, uma no seio, a outra no 
quadril.
  Fora, algum fechou a porta de um carro. Jenna ficou tensa e se retraiu horrorizada.
Katie?
  Passos rpidos, e a porta do apartamento vizinho abriu-se e fechou-se. Jenna relaxou de alvio, e Marcus riu. Achegou-se novamente, mas ela se esquivou, passou 
 sala e acendeu a luz. Estava abalada, e a sala parecia girar a seu redor.
  Marcus aproximou-se. Jenna voltou-se, e ele baixou o olhar para o corpete de seu vestido. Um ombro estava descoberto e a renda do suti aparecia.
  Jenna arrumou-se rapidamente e umedeceu os lbios trmulos. Sentia-se desgrenhada, confusa... e trmula.
  Marcus avanou um passo, e ela recuou, meneando levemente a cabea. Fitaram-se, sem saber o que dizer.
- Acho que seria demais esperar que as barreiras cassem to
facilmente...
- Voc no  to irresistvel. - Jenna sentia necessidade de atacar, enquanto recompunha as defesas. Marcus era um oponente formidvel e no jogava limpo. Atnita, 
percebeu que o via como inimigo. Marcus. Seu amigo... seu protetor, levemente autoritrio, quase irmo mais velho. At ento.
Ele emitiu um som que no chegava a ser risada.
-        Acho que provei meu ponto de vista, pelo menos.
  Marcus com certeza provara que podia fazer com que ela o desejasse... que podia lev-la para a cama. Avassalada por dvidas, Jenna fechou os olhos e respirou fundo. 
Foi quando um medo impreciso se formou, um que no saberia descrever.
  Passou a mo nos cabelos, na tentativa intil de aprum-los. Tomar a deciso de desistir de Dean e dos sonhos que alimentara em relao a ele era uma coisa. Ter 
um caso fogoso com o irmo dele era outra, totalmente diferente. No podia confiar naquelas emoes novas.
-        Nada disso foi verdade!
Marcus estendeu as mos ao longo do corpo.
  -        Pareceu-me verdadeiro. Muito mais do que sua fixao romntica juvenil por meu irmo.
  Era to cruel. Jenna voltou-se e engoliu em seco. A mesinha estava em total desordem, como sempre. Como sua vida, comparou, de repente irritada. Ela e Katie deviam 
comear a se organizar.
  -No quero mago-la, Jenna. Mas estou ficando um pouco cansado de esperar voc emergir do seu mundo imaginrio.
Ela se voltou irada.
  -        Acho que sou idiota, sim. Mas no to boba a ponto de no saber a diferena entre amor e... luxria.
Marcus riu.
  -        Luxria?  a segunda vez que diz isso. Suponho que me beijou agora h pouco como se sua vida dependesse disso por causa da luxria.
Jenna desviou o olhar.
Ele lhe tomou o queixo e forou-a a encar-lo. - Talvez... eu no me importo. Seja o que tenha sido, foi muito forte. Voc me acendeu como um rojo.
- Rojes no duram muito tempo - retrucou Jenna. - So s luz e cor, e ento... viram cinzas. - Ela se desvencilhou, mas Marcus lhe agarrou o pulso.
- De que tem medo? De que isto vire cinzas?
-         provvel que vire - racionalizou ela. - No ?
Marcus s tivera namoros efmeros, com moas que no chegava a apresentar  famlia e que ele raramente mencionava. Katie tambm tivera vrios namorados, alguns 
pareceram srios por algum tempo. Jenna consolava a amiga quando ela chorava o trmino de outro relacionamento.
  Sempre se considerara felizarda, segura na certeza do amor de Dean. Agora, sabia o quanto se iludira.
- Se eu e voc dormssemos juntos... sua famlia ficaria sabendo. No conseguiramos esconder deles.
- E da? Eles gostam de voc. Katie vai ficar exultante.
- E quando acabar?
  Jenna temia que a famlia Crossan a rejeitasse depois, por solidariedade ou constrangimento, considerando socialmente desconfortvel incluir a ex-amante do filho. 
Principalmente se ele tivesse uma nova namorada. As implicaes eram infinitas. E desoladoras. A simples possibilidade de ser banida da vida deles trouxe de volta 
as inseguranas de sua infncia.
  Se os Crossan a rejeitassem, ficaria sozinha no mundo. Estremecia s de pensar. Sentiria de novo a solido assustadora que experimentara aos seis anos, ao perceber 
que no podia contar com ningum, a no ser consigo mesma.
- No  minha inteno que se acabe - declarou Marcus.
- Todos os seus outros namoros acabaram. Eu no suportaria perder meu relacionamento com a sua famlia, Marcus. - E, se ele a deixasse... Empalideceu de medo. - 
Ou a sua amizade. Ele lhe tomou as mos.
  -        Nunca vai perder nada disso, Jenna.  seu para sempre. Nunca perder Katie... nem Dean. Se  isso o que a preocupa, h uma soluo bem simples.
Jenna recusou de antemo.
- E arriscado demais...
- Oua - pediu Marcus. - Quero muito mais do que alguns meses na sua cama. E sei que voc precisa de mais que isso. No queria Dean de verdade, mas sim o que ele 
simbolizava para voc... famlia, estabilidade e segurana, e eu ficaria mais do que feliz em lhe oferecer tudo isso. Case-se comigo.
  Jenna achou que no ouvira corretamente. Ia contestar aquela avaliao de seu amor por Dean, mas as palavras finais de Marcus a confundiram. Ficou sem ao.
Marcus a avaliava com ateno.
  -        E ento? - pressionou, quando o silncio prolongou-se. - Quer se casar comigo, Jenna?
  De algum modo, ela conseguiu desprender a lngua do cu da boca.
- Voc no quer se casar! Quero dizer... nunca mostrou tendncia a...
- No acha que est na hora de eu me casar? - questionou Marcus. - A maioria dos meus amigos j se casou, ou tem companheira.
- Pensei que voc fosse feliz assim.
- Bem, talvez falte algo em minha vida, algo de que voc no desconfiava.
  Uma esposa? Ela o encarou e percebeu que, embora o conhecesse havia muito tempo, sempre houvera nele algo que lhe permanecia oculto. Atribura a impresso ao fato 
de ele ser o mais velho, mas a diferena de idade no se destacava tanto agora. De qualquer forma, ele ainda parecia um pouco arredio. Dentre os membros da famlia, 
Marcus era o que ela menos conhecia.
  Agora, ele propunha o relacionamento mais ntimo que podia haver entre homem e mulher.
Marcus sorriu terno.
-        Eu a quero muito, Jenna, e adoraria... que fosse minha esposa.
Satisfazer uma necessidade sexual, por mais potente que fosse, no parecia motivo suficiente para assumir tamanho compromisso.
- Se est fazendo isso para me levar para a cama... - comeou ela, mas ele a calou com um olhar.
- Sabe... acho isso ofensivo, de certa forma - protestou Marcus.
- Desculpe-me. - Jenna sabia que ele no era to cruel... nem estava desesperado. Ele gostava dela de verdade e talvez isso bastasse para ele. Mas no para ela. 
- No posso me casar com um homem que no amo!
  Ele estreitou o olhar e enfiou as mos nos bolsos. Adotou um tom spero, quase comercial.
- Ama os meus pais, no?
- Sim, mas  diferen...
- E Jane?
- Gosto muito dela.
- E Katie?
-        Claro!
Marcus fez pausa.
- E  louca por Dean. Est dizendo que sou o nico membro da famlia que no ama?
- Sabe que no  a mesma coisa!
- Ento, voc me ama.
- De certa forma, sim...
- Uma forma que.inclui sexo... luxria... seja l como chame. Uma emoo adulta, Jenna, no uma iluso adolescente cor-de-rosa. E eu te amo... - Ele fez outra pausa. 
- Diria que temos uma base bastante slida para o casamento.
-  loucura. - Jenna massageou a tmpora, as artrias latejantes.
- Por qu? Todos os dias, pessoas que at pouco tempo antes eram totalmente estranhas uma  outra juram amor e confiana at a morte. Ns nos conhecemos quase a 
vida toda. Nenhuma surpresa desagradvel e, com certeza, nenhum parente hostil.
  O argumento era convincente. Jenna no esperava amar novamente como amara Dean. Marcus lhe provocava sensaes sexuais que ela nunca se imaginara ser capaz de 
sentir. E tinham muitas coisas em comum.
  Ele usava o argumento mais persuasivo de todos... a promessa de ela concretizar seu lugar na famlia Crossan, fortalecendo os laos que lhe eram to importantes.
  -        Quer filhos? - indagou, sem pensar. Estava mesmo considerando a possibilidade? - Se houvesse crianas, nunca considerariam o divrcio. Ela nunca prejudicaria 
um filho dessa maneira, e tinha certeza de que Marcus tambm no.
  -        Espero que tenhamos filhos - replicou ele. - Voc gosta de crianas, no gosta?
  Jenna sempre imaginara que um dia teria uma famlia. Mas jamais sem se casar. Fazia questo de que seus filhos tivessem um pai, um que se comprometesse com eles 
por toda a vida.
Tudo o que Marcus dissera fazia sentido, entretanto...
  Marcus a abraou, segurando sua cabea contra o ombro. Ento, beijou-a com carinho, demoradamente.
  -        Temos mais do que sexo - afirmou. - Embora seja importante e eu queira... com voc. Se no tivesse demonstrado que quer tambm, eu no teria nem abordado 
o assunto. J sei - adiantou-se, quando ela fez meno de falar. - Seu corao pertence a Dean. Posso me conformar com isso, at voc superar essa fase. Um dia, 
ver que seu corao est normal... um pouco batido talvez, mas seu novamente. Porque ele no o quer.
  Jenna no sabia o que veio primeiro, o beijo ou o som da chave de Katie na porta.
  Se Marcus ouviu, nem ligou. Ela no retirou as mos de sobre os ombros fortes. Marcus empenhou-se em invadir seus lbios para explorar.
  -        E o carro de Marcus l fora... - comentou Katie, entrando. - Vocs dois ainda... ooh, desculpem! Estamos interrompendo algo?
  Katie estacara no vestbulo, com Jason logo atrs. Marcus interrompeu o beijo, porm manteve o brao na cintura de Jenna.
- Esto - confirmou, chateado.
- Podemos sair e entrar novamente - sugeriu Katie, um sorriso satisfeito nos lbios.
- No - respondeu Jenna. - Vou levar Marcus at a porta.
Katie encarou o irmo.
- Est indo embora?
- Parece.
  Jenna abriu a porta ouvindo os cochichos vindo da sala. Marcus a fitou mais uma vez.
  Ele tinha razo, pensou Jenna. Dean no a queria, mas seu corao tolo um dia sararia.
  -        Pense em tudo o que falamos - pediu ele, beijando-a rapidamente. - Telefono amanh.
  Com isso, deixou-a. Jenna esperou at ele o carro dele desaparecer e percebeu que estava trmula, com os joelhos fracos.
  Permaneceu recostada na porta por alguns segundos e, ento, voltou para a sala.
  -Vou me recolher - anunciou, fingindo no notar a expresso curiosa de Katie.
  Quinze minutos depois, Jason foi embora e, dali a segundos, Katie invadia seu quarto.
-        No pode estar dormindo ainda.
Jenna suspirou, sentou-se na cama e acendeu o abajur. Katie ps as mos na cintura.
-        Vamos, o que est acontecendo entre voc e meu irmo?
- Ele me pediu em casamento.
Katie quase se engasgou.
- Jura? No acredito! - Atirou-se na cama e abraou a amiga.
- Eu mesma mal posso acreditar - murmurou Jenna.
- Vai ser minha cunhada! Bem, sempre achei que seria, mas pensei que fosse se casar com... - Sem completar, abraou a amiga novamente. - Eu disse que ele gostava 
de voc! Voc disse sim, no ?
- No, ainda no. - Jenna no permitiria que o entusiasmo de Katie influsse sua deciso.
- Por que no? - Katie levou a mo  boca. - Oh, lamento. Ns interrompemos, no foi? O ar estava carregado mesmo quando entramos...
- Provavelmente, foi melhor assim. Terei tempo para pensar.
- No qu? Conheo*'voc, Jen. No beijaria Marcus daquele jeito, a menos que quisesse. Quando perceberam que estavam apaixonados?
No podia dizer a Katie que no estavam apaixonados, de verdade.
- Acho que... esta noite.
- A famlia vai ficar em polvorosa! Vai se tornar legalmente uma de ns. Podemos contar a papai e mame amanh? Ou Marcus quer dar a notcia?
- Eu ainda no disse sim - lembrou Jenna.
- Mas claro que vai dizer sim! Voc e Marcus...  perfeito! No sei como ningum notou antes. Os dois so to reservados e srios, profundos e gostam das mesmas 
coisas! Ele sempre teve cuidado com voc, mas voc fazia frente a ele quando ramos crianas. Marcus precisa de algum que ele no pode dominar. Foram feitos um 
para o outro.
- Acha?
- Totalmente. Mas acho que j sabe disso. Espere at eu contar a Dean!
- No!
- Bem, no at voc dizer sim, acho - concordou Katie. Sentou-se na cama. - Telefone para ele.
- Telefonar para Dean?
- No, para Marcus! Telefone para ele e tire-o dessa misria! Ele j deve estar em casa.
  Katie foi buscar o telefone sem fio e o entregou a Jenna. Sentou-se na cama de pernas cruzadas.
  Era difcil resistir a tanto entusiasmo. Aparentemente, no ocorreu a Katie dar-lhe alguma privacidade.
-        Ligue - incentivou ela, e ditou o nmero.
  Por que no?, considerou Jenna. Claro que no tomava a atitude simplesmente para no desapontar Katie. Tinha muitas outras boas razes. Se todos os Crossan se 
sentiam como Katie, e Dean ia se casar com Callie, de qualquer forma... Por que no aceitar o pedido de Marcus? Provavelmente, era a melhor oferta que conseguiria.
  Quase perfeita, na verdade, com o detalhe de que no se tratava de seu eleito. Marcus sabia disso, mas parecia no se importar. No era como se tivesse de fingir, 
de enganar. Ele mesmo argumentara que seria sua grande chance de entrar para famlia Crossan, uma isca tentadora demais para ela.
  Como que num sonho, Jenna teclou os nmeros. Encostou o fone no ouvido e esperou. Talvez ele no estivesse em casa...
- Al? - atendeu Marcus, a voz forte e grave.
- Marcus? - Jenna tinha as mos trmulas e suadas. Mordiscou o lbio.
- Jenna?
Ela olhou para Katie, que assentiu vigorosamente, esticou os dois polegares para cima e sorriu encorajadora. Jenna engoliu em seco.
-        Eu s queria dizer... a resposta  sim.
  Por um instante, pensou que ele no tinha entendido. Ento, ouviu um suspiro.
-        Obrigado. Muito obrigado, querida.
  Querida. Era estranho, mas ela sentiu o corao se derreter e virar uma massa aquecida.
- Obrigada por ter me pedido - sussurrou.
Ele riu, quase descontrado.
- Foi gentil em ligar. Achei que j estava dormindo.
- Estou telefonando da cama.
Ele reteve o flego.
- Vou deix-la dormir, ento. E... Jenna?
- Sim?
- Eu te amo. Estou contente por voc ter ligado.
- Eu... eu te amo tambm - replicou Jenna, ciente da presena de Katie. No era mentira. Conforme Marcus observara, havia diferentes tipos de amor.
Marcus comprou-lhe um diamante solitrio num anel de ouro branco. Mais tarde, Jenna telefonou para a me e deu a notcia, com Marcus a seu lado.
  -        Ela ficou contente - comentou, estendendo o telefone. - E quer falar com voc.
  Marcus brincou com a mo de Jenna ornada pelo solitrio enquanto falava com a futura sogra.
  -        Sim... Obrigado. E eu sou um homem de sorte... No escolhemos a data ainda, mas ser logo. - Sob o olhar atento de Jenna, ele detalhava: - Pensei em fazer 
aqui em Auckland, se no se importar... Claro, vamos mant-la a par das providncias. Minha me vai ficar contente em ajudar... Claro... - Devolveu o telefone.
Jenna ainda conversou um pouco com a me e, ento, desligou.
- Quer uma festa grandiosa? - indagou Marcus.
- No!
- Tem certeza?
- Absoluta.
-  bom, porque gostaria de me casar sem alarde. E logo.
- Logo? - Jenna sentiu o corao falhar.
- No vejo motivo para esperar, e voc?
Jenna engoliu em seco.
- Acho que no.
- Est arrependida? - Srio, ele lhe apertou a mo.
- Voc est?
- No. Sei o que quero, Jenna.
  Ela permaneceu em silncio por um Segundo ou dois. Desejara Dean por tanto tempo... Era difcil livrar-se do hbito. Mas devia seguir em frente... precisava seguir 
em frente.
  Concordara em se casar com Marcus, que a queria de uma forma que Dean jamais quisera.
  E ela o queria da forma mais fundamental... fisicamente, ao menos. Marcus era um homem sexy e bonito, tinha uma empresa bem-sucedida e era do tipo decente e trabalhador. 
Que mais uma mulher podia querer?
Ergueu a cabea.
-        Eu disse que me casaria com voc. No vou voltar atrs.
  -        Otimo. - Marcus relaxou. - Um ms  suficiente para voc providenciar o vestido e o que mais precisar?
Jenna arregalou os olhos.
- Um ms?!
-  pouco?
- Dean... e Callie.
Marcus estreitou o olhar.
- O que tem eles?
  -        No devamos roubar a festa... quero dizer, casando-nos antes deles. Ficaram noivos antes.
  Katie sugerira um casamento duplo, para desespero de Jenna. Marcus refutara a ideia, alegando que no dividiria seu dia de casamento com mais ningum, exceto a 
noiva.
  -        Eles no marcaram a data. E no tenho vontade de esperar at eles se decidirem.
  Jenna capitulou quando Katie explicou o problema de Callie e Dean:
  -        Os pais dela gostariam de dar uma festa tradicional l e, naturalmente, Callie quer os amigos por perto. Papai e mame ficariam felizes em realizar tudo 
aqui, mas, de qualquer forma, uma das famlias ter de viajar.
  Comparado  logstica do casamento de Dean e Callie, o de Jenna e Marcus foi um exerccio de simplicidade. Katie ajudou Jenna e escolher o vestido de seda branco 
simples, com decote debruado de prolas em forma de gota. Marcus reservou uma capela perto da casa dos pais, e a lista de convidados limitou-se s famlias e cerca 
de vinte amigos.
  Marcus contratou um bufe, pois no queria que a me se preocupasse com isso.
  -        Eu disse uma festa pequena... no barata. Quero que se divirta tambm, e no fique preocupada em esquentar os canaps.
  Katie foi a nica dama de honra, e Dean ficou ao lado do irmo no altar.
  Jenna entrou na igreja com o padrasto. No fim do corredor, Marcus parecia srio e nervoso, mas sorriu quando o pastor comeou a cerimnia.
  Jenna denunciou o nervosismo ao fazer os votos. Marcus pronunciou os dele com firmeza, mas, ao colocar a aliana em seu dedo anular, ela sentiu seu leve tremor.
  Marcus ergueu o vu e a beijou. A seguir, assinaram o livro de registro civil e voltaram pelo corredor da capela.
  Dean cumprimentou o irmo com um tapa nas costas e beijou Jenna levemente nos lbios. Katie abraou-a forte, seguindo-se a me e a sra. Crossan.
  Aps a sesso de fotografias, voltaram para a casa dos Crossan e iniciaram a festa com doces, salgados, bolo e champanhe.
  Tudo aconteceu rpido, at o momento em que deixaram a casa e entraram no carro sob uma chuva de confete.
  Marcus estacionou o veculo pouco adiante, para se livrarem do confete nos cabelos. Fitou a esposa.
- No est nervosa, est, Jenna?
Ela mordiscou o lbio, tensa.
- No.
- Est nervosa com a enormidade do compromisso? - Ele lhe acariciou o lbio com o polegar, provocando sensaes agradveis.
- Nada de pressa. Estamos casados. Temos a vida inteira pela frente.

CAPTULO VIII

Dlurante o rpido noivado, Marcus a beijara com paixo e a acariciara com intimidade, s vezes. Mas sempre se contivera pouco antes da consumao, deixando-a tensa 
e insatisfeita.
  Jenna supunha que ele estivesse respeitando sua inocncia, considerando que ela desejava se casar virgem, mas tambm imaginava que ele quisesse mant-la em estado 
de ansiedade para no prorrogar a data do casamento. A rapidez com que ele providenciara tudo sugeria um temor de que ela desistisse.
  Bem, ela no desistira. Agora, como ele diria, estavam casados, com a vida toda pela frente.
Mas primeiro havia aquela noite...
  Marcus reservara uma sute num hotel-da cidade, onde ficariam antes de embarcar no vo para Rarotonga, nas ilhas Cook, em viagem de uma semana.
  A sute no era a nupcial, mas tinha uma vista maravilhosa do porto Waitemata e do mar azul-esverdeado... alm de uma cama king size. Completavam a decorao uma 
pequena mesa no canto com duas cadeiras. Haviam trazido uma garrafa de champanhe fechada e duas taas.
  Jenna desviou o olhar da cama e aproximou-se da janela panormica. Escurecia. As luzes brilhavam ao longo da praia e era possvel ver o contorno dos navios contra 
o mar inquieto.
  Marcus aproximou-se e pousou o brao em seus ombros. Apreciaram a paisagem em silncio,  medida que mais luzes surgiam e a gua escurecia. Umas poucas estrelas 
brilhavam no cu.
  Marcus encaixou a mo em sua nuca delicada e comeou a mas-sage-la. Era relaxante e, ao mesmo tempo, ertico. Jenna inclinou a cabea para a frente, permitindo 
que ele aliviasse a tenso que se acumulara ali durante o dia.
- Pensei em chamarmos o servio de quarto e pedir o jantar - sugeriu ele.
- Hum... Est bem. - Jenna pressionou o pescoo contra a mo forte que tanto a confortava.
  Marcus inclinou o rosto e a beijou, posicionando-a melhor para acessar a boca.
  Jenna correspondeu ao beijo sem fingir, entreabrindo os lbios ansiosa. Voltou-se e se segurou nos ombros dele. Marcus deteve-se por um segundo, como que surpreso, 
e ento enterrou as mos em seus cabelos sedosos, aprofundando o beijo, colando seus corpos.
  Marcus ergueu a cabea, acariciou-lhe as costas e a segurou pelos quadris, afastando-a um pouco. Tinha os olhos obscuros no rosto levemente enrubescido.
- Sobre o jantar...
- Que jantar? - Jenna o enlaou ao pescoo e lanou um olhar provocante.
Marcus parecia confuso.
  -        Aquele que planejei para acompanhar o champanhe. - Indicou a garrafa na mesa. - Antes...
- Quer me embebedar novamente?
Ele sorriu divertido.
- Relax-la um pouco. Pensei que estivesse assustada.
Jenna sentiu um temor de excitao.
- Tem de haver uma primeira vez.
Marcus ficou srio.
- No precisa ser esta noite. No se voc preferir esperar.
Jenna enterneceu-se. Apesar da pressa em se casar e do desejo perceptvel, Marcus estava disposto a respeitar seu ritmo. Era um gesto de cavalheirismo pelo qual 
ela no esperara, mas ainda assim caracterstico de Marcus.
Passou a ponta da lngua nos lbios.
-        No quero esperar. Voc quer?
Ele respirou fundo, agarrou-a pelas ndegas e puxou contra si.
  -        Dentre as perguntas mais tolas que j ouvi, minha querida esposa, essa leva o primeiro prmio.
  Jenna riu, e ele a beijou novamente, abafando o riso. Ela o abraou enquanto correspondia sem inibio, provocando-a com a lngua e os dentes.
Marcus se afastou, ofegante, e estreitou o olhar.
- Quem a ensinou a beijar assim?
- Voc - provocou ela, ofegante. - Est reclamando?
- Raios, no! - Febril, Marcus a ergueu nos braos e carregou para a cama.
  Jenna livrou-se dos sapatos. Ele tambm se sentou, para descalar os sapatos e as meias. A seguir, despiu o palet e a camisa.
  Observando-o fascinada, Jenna sentiu o corao disparado e o desejo despertando seu corpo.
  Marcus levantou-se e foi  mesa. Abriu a garrafa, serviu as taas com a espuma transbordando e levou a bandeja at o criado-mudo.
-        Chegue para l.
  Ela obedeceu, e Marcus afastou a colcha, o acolchoado e o lenol, empilhando alguns travesseiros. Convidou a esposa a se acomodar enquanto arrumava o outro lado 
da cama.
  Finalmente, ele se instalou ao lado dela, entregou-lhe uma taa e tilintaram os cristais.
-        A ns.
  Marcus esvaziou metade da taa de uma vez. Jenna provou o champanhe e sentiu as bolhas estourarem na lngua.
  Ento, Marcus aproximou-se mais, e ela sentiu a lngua dele nos lbios, degustando o sabor.
Ante seu lamento, ele recuou.
-        No gostou?
- No! Quero dizer... no  isso.
Ele sorriu.
- Gostou?
Jenna tomou outro gole de champanhe antes de responder.
- Gostei.
- timo. Avise se eu fizer algo de que no goste.
Criativo, Marcus mergulhou um dedo na taa e o encostou na base do pescoo dela. Jenna arrepiou-se ao contato com o lquido gelado, antes que o marido lambesse o 
champanhe, sedutor.
  Jenna entreabriu os lbios e sentiu o rosto queimar. Srio agora, Marcus beijou-a novamente, exigente, pressionando-a contra os travesseiros.
  Quando concluram mais aquele beijo, ele a avaliou... Jenna parecia confusa e excitada. De repente, despejou um pouco de champanhe no ombro dele e, ousada, inclinou-se 
para a frente e capturou a gota com a lngua.
  Marcus prendeu a respirao. Terminou o champanhe e colocou a taa sobre o criado-mudo. Determinado, comeou a desabotoar a blusa dela.
O suti rendado expunha metade dos seios. Jenna sentiu o corao palpitar. Marcus admirou os volumes antes de traar a borda com o dedo. Ento, afastou a blusa, 
e ela o ajudou.
Afobado, Marcus lhe desabotoou a cala e abriu o zper.
-        Levante-se - instruiu ele.
  Jenna o ajudou a livr-la da cala. Por baixo, usava uma calcinha minscula, conjunto com o suti.
-        Lindo...
Jenna tomou mais champanhe, nervosa e fascinada.
Marcus a abraou e beijou novamente.
  Jenna sentiu uma doce tenso crescer dentro dela. A cabea zunia. Apertou a haste da taa na mo e estremeceu, excitada.
  Marcus descolou os lbios e tomou-lhe a taa, colocando-a ao lado da sua. Ento, estendeu-a melhor na cama, beijou-a novamente e passou a massage-la. Ela retribuiu, 
achando tudo estranho, porm incrivelmente fascinante.
  Foram minutos sem-fim de preliminares, at que Jenna emitiu um gemido rouco. Marcus ergueu a cabea.
- Sim?
- Sim... - Ela mal conseguiu pronunciar o monosslabo.
Ele afastou-lhe os cabelos e beijou-a na testa.
- No h o que temer.
  Jenna no estava assustada, mas desesperada por ele. Alm de profundamente grata gela iniciao paciente com que a presenteava.
  Era estranho e excitante ao mesmo tempo. Marcus posicionou-se, mas uma frgil barreira o deteve. Jenna viu a expresso tensa. Ele permaneceu imvel, esperando 
por ela, ofegante.
Jenna experimentou movimentar-se, mas a barreira persistia.
Ento, ela cerrou os dentes e tomou a iniciativa. Ante a dor, gritou.
- Desculpe-me, querida - lamentou Marcus. - Se quiser parar...
Ela meneou a cabea e mordiscou o lbio.
  A barreira se fora. A dor arrefecera. Logo, flutuava, e sabia que ele tambm atingira o auge, mantendo-a segura nos braos enquanto ambos estremeciam em xtase, 
ofegantes.
Marcus a beijou.
- Voc est bem?
- Melhor impossvel.- Jenna o enlaou ao pescoo. - E voc?
- Precisa perguntar? - Ele a beijou novamente. - Sempre soube que voc seria uma amante maravilhosa, mas no esperava que fosse to fantstico j na primeira vez.
- Nem eu - confessou ela. - Obrigada, Marcus.
- No diga isso. Obrigado por se casar comigo, Jenna. E por ser to corajosa e linda. Voc  formidvel.
Jenna estava contente por ter lhe dado prazer. Sentia-se leve e, quando ele se afastou, experimentou uma sensao de perda.
  Mais tarde, tomaram banhos juntos e sentaram-se com decoro para saborear o jantar e mais champanhe.
  Ento, o desejo se manifestou, intenso, e voltaram para a cama, para os braos um do outro.
  A semana inteira de lua-de-mel foi como a noite de npcias. De dia, passeavam nas praias de areia branca, mergulhavam nas guas cristalinas de uma rea de coral, 
saboreavam pratos exticos com sabor de coco e assistiam a apresentaes de danarinos das ilhas Cook no hotel.
  Na dana sensual e convidativa, os homens permaneciam meio agachados e batiam nas coxas musculosas cor de canela enquanto circundavam as mulheres, que rebolavam 
os quadris sensualmente, o olhar baixo, ao ritmo dos tambores.
  Marcus alugou uma lambreta, a forma mais comum de transporte por ali, e conheceram a ilha inteira, Jenna na garupa, agarrada  cintura de Marcus. Visitaram plantaes 
de coco e inhame nas colinas do interior, caminharam por trilhas ladeadas por hi-biscos, bananeiras com flores roxas enormes e descobriram uma pequena clareira escondida. 
Protegidos pela vegetao fechada, deitaram-se na relva macia e fizeram amor.
- Isto aqui  um pedao do paraso - definiu Jenna, depois, aninhada junto a Marcus sob os raios de .sol filtrados pelas folhas das rvores. Dali, podiam ouvir as 
ondas se quebrando contra o recife de coral que circundava a ilha. Ao redor, as palmeiras gin
gavam ao sabor da brisa morna. - Um paraso tropical!
- Paraso  onde voc est - lisonjeou Marcus. - Mas... - Afastou-lhe uma mecha de cabelos do rosto. - Nunca vou me es
quecer deste lugar. Quero fazer voc feliz, Jenna. E mant-la feliz para sempre.
Na ltima noite, participando de uma festa para os hspedes, Marcus surpreendeu Jenna convidando-a para danar. Indiferente a seus protestos, ele a desafiou a danar 
como as nativas, enquanto ele seguia o exemplo dos homens.
  A princpio constrangida, ela logo pegou o ritmo e se soltou. As batidas dos tambores ficaram mais ligeiras, frenticas e, no final, ela estava sem flego.
  Os danarinos retiraram-se sob uma salva de palmas, e ento uma pequena banda iniciou uma melodia de jazz. Em vez de voltar  mesa, Marcus puxou Jenna pela mo, 
e passaram a danar lentamente em meio a outros casais.
  Jenna usava um sarongue de algodo, normalmente vendido nas feiras locais, e uma blusinha branca. Marcus mantinha a mo em suas costas nuas e movia sutilmente 
o polegar sobre a espinha.
  A certa altura, ele apoiou o queixo na testa dela, suas coxas se roando. As luzes diminuram, e Jenna fechou os olhos para saborear o feitio da noite tropical, 
a msica e o homem que a abraava.
  Sentia-se viva e satisfeita... como no se lembrava de experimentar havia anos. Passara tempo demais em estado de suspenso, esperando que sonhos se concretizassem 
sem que movesse uma palha para isso.
  De repente, tomara outra direo. Despertara do sonho e encontrara uma realidade infinitamente mais excitante e satisfatria.
  Apertou os braos em torno do pescoo de Marcus e apoiou o rosto contra o ombro forte. Quando a msica terminou, ele no a liberou completamente e perguntou:
- Quer ir agora?
- Sim. - Ela queria Marcus. Queria sentir as mos dele em seu corpo, a boca sobre a dela, a masculinidade novamente dentro dela, levando-a ao xtase, que parecia 
mais intenso a cada noite.
  O hotel compunha-se de chals individuais com telhados de colmo, cercados de palmeiras,--altas e arbustos perfumados. A trilha que levava a cada unidade era fracamente 
iluminada.
  Nas sutes, janelas com tela permitiam que o perfume da vegetao invadisse o quarto e que o luar se derramasse sobre a cama ampla, emprestando uma tonalidade 
azulada aos lenis brancos.
  Jenna admirava a lua pela janela quando Marcus aproximou-se e a abraou pela cintura. Ele a beijou no pescoo, e ela deixou a cabea pender para trs.
  Marcus a fez se voltar e a encostou na parede, beijando-a at deix-la tonta. As cegas, foi tateando  procura do n do sarongue, enquanto Jenna lhe desabotoava 
a camisa. Ao se achegar a ele, sentiu a confirmao do quanto ele se excitara.
  Nus, caram na cama juntos e, em poucos segundos, ela gritava de prazer, enquanto Marcus gemia de satisfap.
  Aps o momento de xtase, Jenna se voltou para o marido e admirou seu dorso ao luar, ouvindo o sussurro do vento entre as palmeiras. O rosto dele estava na penumbra, 
mas ele lhe acariciou os cabelos e a puxou mais uma beijo.
  Jenna recostou a cabea no ombro dele e suspirou. Sentiu um estmulo na pele e juntou seus corpos. Voltou-se para beijar a pele salgada, e ele a abraou com mais 
fora. Estava feliz. Nunca estivera to prxima de outro ser humano.
  Jenna se lembraria daquela noite por muito tempo. Partilharam algo especial e ntimo antes de voltar  Nova Zelndia, um tipo diferente de realidade.
  Realidade agora significava voltar ao trabalho e passar o dia longe de Marcus. Implicava tambm instalar-se no apartamento dele e adaptar-se a seu estilo de vida.
  Marcus abrira espao para suas roupas no closet. Ela arrumou seus produtos de higiene pessoal e maquiagem no banheiro, e abasteceu os armrios da cozinha com temperos 
e outros ingredientes que ele jamais pensara em comprar.
- Eu geralmente como fora ou peo para entregarem - justificou-se ele, quando chegou em casa no primeiro dia e a encontrou preparando o jantar. - Voc tambm trabalha. 
No h necessidade de voltar correndo e fazer o jantar para mim.
- Eu gosto de cozinhar. - Jenna colocou no forno um refratrio com batatas recheadas. - Se no quiser que eu...
- Eu no disse isso. S no pretendo que vire uma dona de casa em tempo integral.
- No vou virar - afirmou Jenna. - Passe-me aquela tigela de vidro, por favor. Preciso dela para a salada.
Marcus atendeu, e ento foi trocar de roupa. Jenna preparara tambm fil mignon com legumes.
-        Parece timo - elogiou ele. - No sou de cozinhar.
Jenna fitou-o curiosa.
- Voc preparou um timo caf da manh quando fiquei aqui, na noite em que nosso apartamento se inundou.
- Ah, caf da manh  diferente. Nos finais de semana, sempre fao ovos com toicinho defumado.
  Para dois? Sem motivo, Jenna sentiu cime ao imaginar quantas mulheres j haviam se sentado quela mesa aps uma noite de paixo... quantas haviam partilhado a 
cama de Marcus.
  No seja tola, repreendeu-se. Ele no se casara com nenhum delas, certo?
  Ele se casara com ela... Jenna. Porque estava pronto para se estabelecer, e preferia faz-lo com algum que conhecia desde criana.
A deciso parecia razovel... e maante.
- Gosta de estar casado? - indagou, sem pensar.
- Gosto de estar casado com voc, Jenna. - Ele uma pausa. - E voc, est gostando?
-         Estou.
  Jenna gostava de estar com ele e, com certeza, no se sentia aborrecida. Alm disso, Marcus tinha senso de humor e era gentil, alm de amante criativo e excitante. 
Sabia que o surpreendera e o satisfizera ao mostrar um apetite sexual compatvel ao dele. Desafiavam-se a encontrar novos limites de prazer, chegando frequentemente 
 exausto. E Marcus sempre garantia o prazer dela como o dele prprio.
Ela desviou o olhar.
- Voc  um marido atencioso, Marcus.
Ele se levantou e comeou a tirar a mesa.
- Acho que  a minha deixa...
Jenna nunca se dera conta da intensidade da vida social de Marcus. No lhe faltavam festas, jantares, passeios de iate nos fins de semana, encontros de negcios, 
e agora era seu dever acompanh-lo.
  Os amigos dele pareceram gostar de conhec-la. A esposa do scio, Angela, foi calorosa nos cumprimentos. Almoavam numa churrascaria quando, a certa altura, as 
duas foram ao toalete para retocar a maquiagem.
- Marcus s se dedicou aos negcios durante muito tempo. Estava na hora de ele ter um relacionamento de verdade.
- Ele teve namoradas - lembrou Jenna.
  Angela Travers ajeitou os cabelos castanho-escuros e contraiu os lbios.
- Ah, mas nenhuma delas era o que ele precisava. - Puxou um leno de papel e absorveu o excesso de batom.
- E do que ele precisa, na sua opinio? - indagou Jenna.
- Algum que o coloque em primeiro lugar - opinou Angela, franca. - Algum que o ame realmente, algum que no o use apenas, e que no o decepcione.
Sentindo-se culpada, Jenna foi mais alm.
-        Algum o decepcionou?
Angela hesitou.
  -        No sei ao certo. Sempre tive a impresso de que ele tem uma mgoa bem no fundo. E nenhuma daquelas mulheres com quem ele andou ajudou muito. Voc o conhece 
h muito tempo, no? Pensei que soubesse...
Jenna meneou a cabea.
-        Ele  mais velho e, quando ramos crianas, a diferena se destacava. Desde que ele deixou a casa dos pais, s o via nas reunies de famlia... at recentemente.
- Mas voc o ama?
- Sempre o amei. - Era verdade, embora fosse algo diferente do que sentira por Dean.
  Diferente, mas... De repente, toda a angstia acerca de Dean retornou com fora. Romantismo adolescente, taxara Marcus. Pup-py love. Estaria certo?
- Desculpe-me, no devia estar questionando. S que Ted e eu gostamos muito de Marcus, e queremos que ele seja feliz - explicou Angela.
- Eu tambm. - Devia-lhe isso, ao menos.
- Claro que sim. - Angela afagou-lhe o brao. - No devia estar me intrometendo. Atribua ao vinho. Nunca me dei bem com bebida...
CAPTULO IX

Certo dia, Dean e Callie os convidaram para jantar. 
 - O que acha? - indagou Marcus. Jenna deu de ombros.
-        No podemos recusar, no ?
Ele refletiu.
  -        Acho que no - declarou, finalmente. - E melhor aceitarmos, ento.
  Katie e Jason tambm foram convidados, e os gmeos se provocaram mais do que nunca, respondendo um ao outro com argcia e bom humor. Callie sorria muito, mas se 
mostrava mais quieta do que o normal.
  Jenna sorriu ao ver Dean rir de algo que a irm dissera. Amava ambos, e isso nunca mudaria, mas experimentou alvio ao perceber que seus sentimentos por Dean tinham 
mudado radicalmente. A afeio estava presente, mas no havia mais aquela dor no corao, o desejo de uma relao mais prxima.
  Estava acabado. Dean era algum a quem fora chegada, mas no ntima. E, comparado ao irmo, ele agora lhe parecia muito jovem.
  Foi tomada por uma nova sensao de leveza e liberdade. Estava feliz, quase demais. Quando Dean fez um trocadilho bobo e Katie gemeu alto, completou a brincadeira, 
divertida, e os trs travaram uma batalha de respostas e contra-respostas, para deleite de Callie, Jason e Marcus.
Dean serviu mais vinho  noiva.
- E timo que vocs se dem to bem - comentou Callie.
- Somos amigos desde sempre - afirmou ele. - Fico contente por Marcus ter tido o bom senso de se casar com Jenna.  a melhor coisa que podia ter feito.
- Eu concordo - declarou Marcus.
- Obrigada, Dean - replicou Jenna, graciosa. - Estou contente tambm.
  Trocaram um sorriso, e Jenna sentiu uma onda de felicidade e ternura por Dean, um sentimento sem qualquer conotao sexual. Ele voltara a ser s seu amigo de brincadeiras. 
Como fora tola ao acreditar que o namorico de criana era amor de verdade. Agora, sabia como aquele sentimento era fraco comparado ao amor adulto e duradouro. No 
conseguia se imaginar casada com mais ningum, exceto Marcus.
  Callie levantou-se para levar os pratos e trazer a sobremesa, e Jenna foi  cozinha para oferecer ajuda.
- Pode fatiar a torta de queijo. - Callie indicou o quitute na mesa. - Vou colocar a salada de frutas na tigela.
- Deixe comigo. - Jenna pegou uma faca e comeou a fatiar a torta de queijo.
- Comprei a salada pronta - revelou Callie, constrangida. - No sou muito de cozinha. - Retirou a lata de salada de frutas do armrio

- O frango estava delicioso - assegurou Jenna.
Callie torceu o nariz.
- O arroz ficou grudento!
- No, estava timo. Ningum reclamou, no ?

- Vocs todos so muito gentis. - Callie brigava com o abridor de latas. - Oh, raios... no consigo nem abrir uma lata! - Frustrada, abandonou o enlatado no balco. 
-
- Deixe que eu fao isso. - Jenna pegou o abridor, certificando-se de instalar bem o instrumento antes de girar a manivela que acionava a roda cortante. Num segundo, 
removia a tampa.
- Obrigada. - Callie pegou a lata e despejou o contedo numa tigela grande. - Tnhamos um abridor de latas eltrico em casa.
- Deu uma fungadela.
- Voc pode comprar um aqui. - Jenna estranhou o comportamento da moa. - Voc est bem, Callie?
  Callie deu outra fungadela e levou a mo aos olhos, mas isso no barrou as lgrimas.
Jenna colocou o brao ao redor dos ombros de Callie.
- O que foi?
- Estou bem... - Callie pegou uma folha de toalha de papel, assoou o nariz e enxugou os olhos. - Eu amo Dean - afirmou. - S que... s vezes, sinto saudade de casa. 
No vai contar nada a ele, vai?
- Ele sabe como se sente?
- Ele sabe como me sinto em relao a ele.
- Se sente tanta saudade de casa, no devia contar?
- No quero que ele me ache infantil. - Callie endireitou os ombros. - Eu levo a salada. Voc leva a torta?
- Devamos convidar Dean e Callie para vir em casa - comentou Jenna, mais tarde, quando Marcus entrava com o carro na garagem.
Ele puxou o freio de mo e apagou os faris e lanternas.
- No se importa?
- Ela precisa de amigos.
- Achava que voc seria a ltima pessoa na terra...
- Quer ver seu irmo feliz, no quer?
- Claro. - Marcus tirou a chave da ignio e saltou.
  J no apartamento, Jenna preparava-se para dormir, satisfeita com o jantar, o vinho, a conversa descontrada, porm preocupada com a revelao repentina de Callie.
  Marcus ainda no estava no quarto e ela j ia se instalar entre os lenis, mas decidiu verificar o que ele fazia na sala.
  Encontrou-o na penumbra, junto  janela, contemplando a vista da cidade.
-        Marcus?
Quando ele se voltou, Jenna viu o brilho do copo em sua mo. Ela se aproximou, o cetim da camisola roando-lhe as coxas.
- O que est fazendo?
- Tomando um drinque para encerrar a noite. Quer um tambm? - Marcus parecia distante, e Jenna no conseguia ver-lhe o rosto.
- No, j bebi demais hoje. - Lembrava-se de que Marcus bebera pouco no jantar, pois ia dirigir. Ele nunca fora compulsivo com relao a lcool.
  Jenna permaneceu ao lado dele, observando as luzes distantes, enquanto ele acabava a bebida. Marcus pousou o copo no peitoril da janela. Gotas de chuva atingiram 
o vidro e escorreram, captando outros pontos brilhantes no trajeto. Jenna sentiu um arrepio e abraou-se.
- Est com frio. - Marcus lhe abraou os ombros e esfregou a pele arrepiada.
- Na verdade, no.
  A chuva se intensificou, borrando a imagem, os pontos luminosos mesclando-se como numa pintura abstraa. Jenna apreciou o perfil de Marcus, contra a janela, forte 
e intransponvel. Ento, sentiu-se fria de verdade. Fria e excluda.
-        Marcus?
  Ele se voltou devagar, como se s agora se desse conta de sua presena.
-        Sim,Jenna?
Ela disfarou a preocupao.
- Nada. No vem dormir?
- Est me convidando?
Jenna sentiu o corao disparar.
- Precisa de convite? - Fez pausa. - Sabe que  sempre bem-vindo.
- Sempre?
Ela nunca o recusara, exceto por motivos bvios.
-        Claro. Com certeza, sabe disso.
-        Os homens nunca sabem ao certo. As mulheres podem fingir...
Jenna nunca imaginara Marcus sem confiana naquele assunto. Tentou ver-lhe o rosto, mas estava escuro demais para discernir a expresso.
- Eu no finjo - assegurou. - Nunca fingiria. Alm disso, no h necessidade.
- Voc no tem... fantasias?
  Jenna s fantasiava quando ele no estava por perto, imaginando como poderiam estar.
- Voc fantasia? - rebateu, cogitando se Marcus pensava em alguma atriz ou modelo quando faziam amor.
- Por que fantasiar? - questionou ele, abraando-a. - Quando a concretizao de todas as minhas fantasias est bem aqui?
  Era algo extravagante para se dizer e que satisfaria qualquer mulher. No entanto, Jenna ficou apreensiva. Talvez porque no conseguisse acreditar. Para afastar 
a pequena dvida, ergueu o rosto, convidando-o para um beijo, enquanto o enlaava ao pescoo.
-        Obrigada, Marcus.
  Beijaram-se apaixonadamente em seguida. Atravs do tecido fino da camisola, Jenna sentiu a ereo dele quando colaram seus corpos. Ambos j estavam ofegantes e 
no conseguiram chegar ao quarto. Marcus despiu-se, livrou-a da camisola e se estenderam no sof. Ele ajeitou as almofadas para aumentar o conforto. A chuva aoitava 
o vidro da janela quando se uniram. A certa altura, Marcus sussurrou aflito:
-        Diga meu nome, Jenna. Diga que sabe quem eu sou...
Quase desmaiando de prazer e sem entender o pedido, Jenna atendeu. Marcus gemeu alto quando atingiram o xtase.
  Permaneceram abraados e ofegantes enquanto se recuperavam do momento de prazer intenso.
-        Pareceu fingimento? - indagou Jenna.
  Sentiu a respirao dele junto ao pescoo, e ento ouviu uma risada leve.
  -        No - respondeu Marcus. Levantou-se, ergueu-a nos braos e levou-a para o quarto. - Pareceu... a melhor coisa do mundo.
  Aquela no fora a primeira vez que no conseguiram chegar  cama. J tinham feito amor no sof, no cho, na poltrona, at na cozinha e no banheiro e algumas vezes 
no carro, impacientes demais para entrar em casa aps um programa noturno.
  s vezes, Jenna tinha a impresso de que havia um toque de desespero no ato de amor de Marcus, o que a deixava inquieta. Era quase como se aquele fosse o nico 
canal certo de comunicao entre ambos.
  Haviam concordado em no evitar a gravidez. Entretanto, apesar da vida sexual muito ativa em quatro meses de casamento, Jenna continuava tendo suas regras.
A sogra riu ao saber de sua preocupao.
  -        Esto casados h.nuito pouco tempo! Se no acontecer nada em um ano ou mais, seria bom consultar um mdico. Enquanto isso, o melhor que tem a fazer  
relaxar. Tenho certeza de que Marcus no est preocupado...
  s vezes, contudo, Jenna flagrava o marido observando-a como se esperasse por algo. Talvez se sentisse mais ansioso para ter filhos do que admitia.
  Ento, Katie lhe telefonou no trabalho um dia, parecendo muito agitada.
- E Dean - disparou ela, e Jenna sentiu o corao estacar. - Callie foi embora.
- Embora? - Jenna estava confusa. Callie deixara Dean?
- Ele est arrasado - contou Katie. - Seu estado  lamentvel.
- Onde ele est? E para onde Callie foi?-
- Para casa. Voltou para os Estados Unidos. Dean passou a noite l comigo. Estou preocupada com ele, Jenna. Pode ajudar?
- O que quer que eu faa?
- Jason e eu vamos jantar na casa dos pais dele esta noite, e no gostaria que Dean chegasse em casa e no visse ningum, depois do trabalho.
-         No se preocupe, Katie - declarou Jenna, decidida. - Vou cuidar para que ele no fique sozinho.
  Jenna aguardava  porta do apartamento de Dean quando ele apareceu. Ele a fitou aptico, sem mostrar surpresa.
- Katie lhe contou - concluiu.
- Sim. - Jenna o tocou no brao. - Lamento muito.
  Ele abriu a porta esperando que ela entrasse sem convite. Estava plido e parecia cansado, os lbios comprimidos.
- Foi gentil vindo aqui, mas no preciso de enfermeira.
- No sou enfermeira, sou sua amiga. E sua cunhada. A se gunda melhor coisa depois de uma irm.
Ele esboou um sorriso.
-        Quer tomar alguma coisa? Vou preparar um usque para mim.
Jenna preferiu no admoest-lo quanto  prudncia de ingerir lcool naquele momento. Se Dean queria afogar a tristeza, imaginava que ele tivesse esse direito.
-        Gim e limo? - indagou ele.
  Jenna assentiu e sentou-se no sof. Dean andava pela sala, olhava a rua pela janela, pegava livros e objetos decorativos s para abandon-los novamente, como se 
no soubesse o que fazer entre cada gole de usque.
-        Quer falar sobre o assunto? - indagou Jenna.
  Havia uma fotografia de Callie, sorridente, numa estante. Dean pegou o porta-retrato.
  -        Sou um cara insensvel, Jenna? Devia ter notado que ela estava infeliz?
-        Ela no se mostrava infeliz o tempo todo.
Ele animou-se um pouco.
  -        Tem razo. Quero dizer, ela no podia estar fingindo todo o tempo em que ns... - Voltou a ficar sombrio. - Mas era um cabo de guerra entre mim e sua 
vida anterior. E eu perdi.
-        Voc lutou por isso?
Ele meneou a cabea.
  -        No. Choramos com isso. - Constrangido, tomou outro gole. - Eu a levei ao aeroporto esperando que ela mudasse de ideia - contou, contemplando a bebida 
no copo.
  Em casa, Jenna encontrou Marcus sentado no sof, diante de uma pilha de papis na mesinha, com uma caneta na mo e um copo vazio ao lado. Ainda usava a camisa 
de trabalho, mas desabotoara o colarinho e arregaara as mangas.
-        Parece cansada - comentou ele. - Quer uma bebida?
- J bebi bastante, obrigada.
Marcus ergueu o sobrolho.
- Ah, ?
  No tanto quanto Dean, que ela deixara dormindo no sof, aps lhe retirar os sapatos e cobri-lo com um cobertor.
- Duas doses de gim com limo. Recebeu o recado? - Gravara mensagem na secretria eletrnica, informando aonde iria, mas, como Dean estava ouvindo, no entrara em 
detalhes.
- Como Dean est? E Callie? O que aconteceu?
- Ela voltou para os Estados Unidos.
Marcus reagiu chocado. Parecia at ter-se transformado em pedra.
- Ela o deixou?
- Estava com saudade de casa. Mais do que Dean imaginava, acho. Ele est muito abalado, e Katie ia conhecer os pais de Jason hoje.
Marcus a fitou.
- E voc foi confort-lo.
- Ele precisava de algum. - Jenna sentia as lgrimas nos olhos. Estava cansada e estressada aps dar apoio e amizade por horas, enquanto Dean falava, chorava e 
finalmente adormecia, anestesiado pelo lcool. Ficara chocada e atnita com a cena que presenciara, sentindo-se culpada.
Jenna enxugou as lgrimas com a mo. Marcus no se mexeu.
-        Vou dormir.
  No banheiro, ela lavou o rosto com gua fria. Pobre Dean. E pobre Callie. Lamentava demais por ambos.
  J se arrumava no quarto quando se assustou com um som de vidro se quebrando. Marcus devia ter derrubado algo. Vestiu uma camisola de seda e instalou-se na cama. 
Queria Marcus a seu lado, queria sentir seu corpo quente junto ao dela, os lbios dele nos seus, unir-se a ele...
Mas, quando ele finalmente se deitou, ela j dormia.
Pela manh, Jenna acordou deprimida. Marcus parecia cansado.
  Havia um embrulho em jornal no balco da cozinha. Quando Jenna o pegou, Marcus alertou-a:
- Cuidado... eu devia ter jogado no lixo.   .
Ela o fitou curiosa.
- Eu... deixei cair o copo ontem  noite - explicou ele.
Jenna lembrava-se vagamente do barulho na noite anterior.
Marcus guardava documentos na pasta quando o telefone tocou. Atendeu e passou o aparelho a Jenna.
-        Como ele estava? - indagou Katie.
-        Dormindo como um beb quando o deixei - relatou Jenna.
- Apagado, na verdade. Ele bebeu muito usque.
Marcus beijou Jenna friamente no rosto. Ento, falou ao telefone.
  -        Jenna tem de ir trabalhar, Katie. Por que no telefona para Dean?
- Eu telefonei, mas ele no atende - respondeu Katie.
Marcus ficou tenso.
- O que ela disse?

- Ele no est atendendo ao telefone - repassou Jenna. A Katie, lembrou: - Ele j deve ter ido trabalhar.
- Ou est de ressaca - considerou Marcus.
- Talvez eu deva ir l, ver se ele est bem. Vou me atrasar no trabalho, mas... Espere um pouco. - Jenna tapou o telefone e agarrou Marcus pela manga antes que ele 
sasse. Ela e Katie tinham chefias a quem responder se chegassem tarde, mas Marcus, no. Ele era o chefe. - Voc podia ir  casa de Dean, verificar se ele est bem.
Marcus franziu o cenho.
  -        Ele no  criana. E no  o tipo que fica se lamuriando por causa de um rompimento amoroso.
-        Katie est preocupada.
Ele tomou o telefone.
  -        Katie? Vou passar na casa de Dean antes de ir para o escritrio, est bem? Embora ache que ele prefere ficar sozinho... Sim, aviso se concluir que ele 
precisa de voc. Sim... prometo.
Ele desligou e lanou um olhar desanimado a Jenna.
  -        Pessoalmente, acho que a ltima coisa que ele quer  um bando de mulheres atormentando-o.
  Jenna chegou em casa antes de Marcus naquela tarde, e preparava o jantar quando ele voltou.
  -        Estive com Dean - relatou ele. - Estava com pena de si mesmo, e uma grande dor de cabea, mas foi trabalhar. Vai superar tudo isso.
  Jenna recordou que Marcus no era to mordaz quanto parecia. Podia ser menos emocional do que os gmeos, mas gostava dos irmos. Quando a famlia tinha problemas, 
ele sempre dava apoio.
  Ps a mesa do jantar e acendeu a luz. Ao voltar  cozinha, percebeu um brilho no cho e inclinou-se para ver. Era um caco de vidro. Pegou-o com cuidado e notou 
que a porta estava arranhada, um risco novo na parte inferior, que estragava o verniz. Analisou a marca por um segundo, confusa.
  Marcus deixara cair um copo na noite anterior... ou assim ele dissera.
  Mas, se tivesse derrubado o copo no carpete da sala, no teria se quebrado. E, se estivesse na cozinha, ela no teria ouvido to bem do quarto.
  Com certeza, ele no arremessara o copo contra a porta? No era do feitio de Marcus. E por que ele faria tal coisa?
  Lembrou-se de que deixara uma panela com legumes no fogo alto e apressou-se para salvar o jantar. Pouco depois, Marcus juntava-se a ela.
No meio do jantar, Jenna se lembrou do caco de vidro.
- Onde deixou cair o copo?
- Que copo?
- Voc disse que deixou cair um copo ontem  noite.
- Isso  importante? - Ele aproveitou para tomar um gole de vinho. - Desculpe-me, se era um copo especial.
- No, mas...
- Voc pode comprar outros.
- Eu sei. - Ele no estabelecera limite de gastos, embora ela ainda usasse seu salrio para comprar as prprias roupas e cosmticos. - No  isso. S queria saber 
como o quebrou. H uma marca na porta...
Marcus franziu o cen^io.
-        Onde?
Ela apontou para o local.
-        No  muito evidente, mas...
-        No se preocupe - interrompeu ele. - Vamos mandar reparar.
Aquela no era a questo...
  -        Sua me deu notcias ultimamente? - indagou Marcus, mudando totalmente de assunto. - Ela prometeu mandar um artigo de jornal que achou que me interessaria.
  Jenna no queria fazer alarde por causa do copo quebrado e deixou o assunto morrer.
  Trs dias depois, um marceneiro reparou a porta, que ficou como nova.
  Durante as semanas seguintes, Katie e Jenna empenharam-se em distrair Dean, para que ele no tivesse tempo para amargar a partida de Callie. Ele no era do tipo 
que ficava sozinho lambendo as feridas, aceitava todos os convites e mascarava os sentimentos mostrando-se descontrado.
Jenna o convidou para jantar com Katie e alguns outros amigos.
Em outro dia, ela e Katie pediram a ele que as levasse a uma feira de artesanato fora da cidade, pois Marcus no queria ir. No domingo, Katie o convenceu a lev-la 
at a casa dos pais, e almoaram l. Certo fim de semana, Marcus conseguiu um barco emprestado e sugeriu que convidassem Dean. Marcus deu de ombros.
- Se acha que  uma boa ideia...
- Ele precisa se distrair - explicou Jenna. - E gosta de velejar. Podemos dizer a ele que precisamos de uma ajuda extra.
  Talvez Dean soubesse que no precisavam de ajuda, mas aceitou o convite, de qualquer forma. Jenna o observou bem, para fornecer um relatrio detalhado a Katie 
depois.
- Ele se divertiu, mas vai levar tempo para se recuperar de todo - alertou  cunhada. - No podemos esperar muito, assim to cedo.
- Tem concerto de rock no prximo sbado - lembrou-se Katie. - Vamos lev-lo.
Elas levaram Dean, mas Marcus no quis ir.
  -        No gosto desse conjunto - justificou ele. - No sabia que voc gostava.
  Jenna no gostava, mas Katie decidira tudo, e tivera de concordar. Tinham de estar disponveis para distrair Dean, ao menos uma das duas, quando a outra no pudesse.
  s vezes, Jenna surpreendia Dean num momento de distrao, de ombros cados, semblante triste e olhar distante, e sentia uma pontada no corao pela dor dele. 
Ento, Dean levantava o rosto e sorria. Ela retribua o sorriso. Dean no permitia que vissem sua dor verdadeira.
  Katie sabia disso, tambm. Comeava a se preocupar com a perda de peso do irmo. Talvez ele no estivesse se alimentando bem. Aventou a possibilidade de telefonar 
para Callie e relatar como Dean sentia sua falta, que ele ainda a amava.
- Cus! - protestou Marcus, irritado, ao entrar na sala um dia quando Jenna e Katie conversavam. - Deixem o camarada se arranjar sozinho. Ele no vai lhes agradecer 
por tentarem resolver os problemas dele.
- S queremos ajudar - teimou Katie. - Voc no quer?
- No vejo o que podemos fazer. Se ele realmente quer Callie...
- Claro que ele a quer! - Katie estava chocada. - Ele a ama!
- Ento, por que ele no embarca no primeiro vo para os Estados Unidos?
- No  to simples... Ele tem um emprego aqui. No pode se instalar nos Estados Unidos sem visto de trabalho, e Callie...
- Duas pessoas que se amam de verdade deviam ser capazes de entrar num acordo.
- Como assim? - desafiou Katie.
- Garantir que Callie passe algum tempo com a famlia duas vezes por ano, por exemplo. Ou poderiam se casar e se mudar para os Estados Unidos, bastando a Dean arranjar 
emprego por l. Ele poderia tambm se esforar para faz-la feliz, a ponto de ela no sentir tanta falta de sua famlia.
Katie meneou a cabea.
- E fcil para voc falar. Voc tem muito dinheiro.
- Dean sabe que basta pedir e eu lhe emprestarei quanto quiser. E eu no disse que seria fcil. Amar algum nunca foi fcil. O amor verdadeiro exige sacrifcio, 
dor e decises difceis.  desgastante e corri a alma, s vezes, parece exigir mais do que um homem pode dar. Mesmo assim, aquele que ama far qualquer coisa, abre 
mo de qualquer coisa para estar perto da pessoa amada, mesmo que isso machuque aqui dentro. E at abre mo desse amor, se necessrio, para que a pessoa amada tenha 
o corao livre.
Jenna fitou-o. Katie estava boquiaberta, tambm. Marcus contraiu os lbios e enrubesceu.
  -        Se ele no a ama dessa forma... ento no a merece - completou.
  Marcus deixou a sala. Katie olhou para Jenna e ergueu o sobrolho, interrogativa.         
  Jenna meneou a cabea, to espantada quanto a cunhada, e perturbada. Nunca vira Marcus discursar com tanta paixo. Que mulher o inspirara tanto? Sem perceber, 
cerrou os punhos, tensa. Sentia a chama do cime queim-la por dentro.
  Marcus nunca fingira sentir nada forte por ela. Sendo assim, no podia se ressentir ante a decepo, pois ele nunca a iludira.

CAPTULO X

Jenna abordou o assunto indiretamente com Katie: - Sei que Marcus teve namoradas antes de mim
- comentou, enquanto lavavam a loua aps um jantar em famlia.
- Ele se envolveu seriamente com alguma?

-  difcil dizer - respondeu Katie, pensativa. - Ele no as levava para casa sempre, e sabe como Marcus ... sempre joga com as cartas coladas no peito, principalmente 
quando se trata de sua vida pessoal. Mesmo assim, no tem com que se preocupar. Acho que nenhuma delas vai aparecer de repente e, mesmo que aparecesse, ele no se 
abalaria. Ele  muito... bem, honrado, e, alm disso, ele a ama.
- Eu sei - replicou Jenna, sorrindo ante a declarao segura da amiga.
- Algum problema? - indagou Katie.
- No. - Jenna meneou a cabea. - Exceto que uma amiga dele disse... ela acha que algum o magoou. - Recordava a afirmao dele, quando estavam no orquidrio do 
sr. Crossan, de que a dor passaria, que ela superaria. Mas ele superara? Deixara para trs aquela amante misteriosa?
- Todo mundo se machuca nesse campo - prosseguia Katie, reflexiva. - S no achava que meu irmo fosse do tipo que permitia que uma mulher abalasse sua vida. Mas 
dizem que guas calmas so profundas e tudo o mais. Talvez ele simplesmente no queira admitir. Voc provavelmente o entende melhor do que todos ns.
- Porque sou a esposa?
- Sim, por isso, claro - concordou Katie. - Mas voc e Marcus so parecidos. Acho que se apaixonaram um pelo outro por isso.
Jenna suspirou.
  -        Vocs so meio reservados e intensos. No como Dean e eu. Ns somos um livro aberto. Todo mundo sabe quando estamos felizes. E, quando queremos esconder 
algo, aplicamos uma mscara que parece a mesma para a maioria das pessoas. Quero dizer, olhe para ele agora.
  Jenna assentiu. Ambas sabiam que Dean estava ocultando o que sentia. As vezes, deixava a mscara cair, mas as pessoas de fora se deixavam lograr pela atitude alegre 
e descontrada, crentes em que o rompimento fora um revs menor em sua vida...
- Sei o que se passa com Dean. Mas nunca sei em que Marcus est pensando, embora ele tambm seja meu irmo. E voc  mais parecida com ele do que eu tinha reparado... 
Pensei que todos soubssemos um sobre o outro, embora voc no revelasse tudo o que sentia, como eu revelava. Sei que tem mais segredos do que eu, mas nunca desconfiei 
de que sentisse algo por Marcus.
- Talvez, nem eu me conhecesse - considerou Jenna, grata aos cus por nunca ter revelado o amor que sentira por Dean. - Estava to acostumada a pensar em Marcus 
como um irmo substituto que...
Katie assentiu.
- Acho que  por isso. E ele estava esperando que voc crescesse.
- Foi o que ele disse - confirmou Jenna. - Vrias vezes. - Entretanto, imaginava se ele chegava a v-la como uma adulta de fato.
  Era verdade que Marcus raramente demonstrava seus sentimentos abertamente. Jenna tinha certeza de que, se lhe perguntasse diretamente quem era a mulher que marcara 
sua vida, ele negaria a existncia de tal pessoa. Era tudo passado, de qualquer forma, e, embora ela fosse a esposa, no se sentia no direito de investigar a vida 
amorosa anterior de Marcus.
  Contudo, no deixou de notar a preocupao dele naqueles ltimos dias. s vezes, flagrava-o observando-o, mas, indagado, ele se esquivava: "Desculpe-me, estava 
pensando em outra coisa".
  Talvez estivesse preocupado com Dean, assim como ela e Katie, embora raramente mencionasse o assunto. Num domingo, aproximou-se dele que estava  janela da sala. 
Ele mantinha as mos nos bolsos e os ombros cados, de forma inusitada.
  -        Marcus? - Ela enganchou o brao no dele. - Est pensando em Dean?
  Pelo perfil, a expresso dele era tensa e de pouca conversa. Ele se desvencilhou, parecendo distante.
  -        Pode-se dizer que sim. Embora voc e Katie pensem nele o bastante por todos ns.
- Est de mau humor - concluiu Jenna. - Problemas nos negcios? - Ele nunca falava sobre a empresa, mas ultimamente passava mais tempo no escritrio do que no incio 
do casamento.
- Os negcios vo bem - afirmou Marcus. Tomou-lhe a mo, puxou-a para si e a beijou. - S sou temperamental. - Esboou
um sorriso, mas o humor no chegou ao olhar.
- No, no  - discordou Jenna, mas ento hesitou. - Voc me diria se algo estivesse errado, no ?
Ele no respondeu logo.
- Depende. Se voc no pudesse fazer nada para ajudar, provavelmente no contaria.
- Mas somos casados! - Aquilo no significava que deviam partilhar os problemas? Dar apoio um ao outro nas dificuldades?
- Sim - concordou ele, srio. - Somos casados. Fizemos os votos, no?
- Para os bons e maus momentos - reafirmou Jenna. A atitude dele era estranha, entretanto. - Falei a srio, Marcus. - E ela sabia que ele tambm falara. Marcus nunca 
faltaria com seu voto solene. - No est arrependido, est? - indagou, ansiosa. Ele parecera to seguro ao aplacar suas dvidas.
-        Como posso estar arrependido? Voc est?
Jenna meneou a cabea com veemncia.
- Claro que no. Voc  um marido maravilhoso. - Ps-se na ponta dos ps para beij-lo de leve, porm, quando seus lbios se encontraram, ele a abraou e exigiu 
mais, deixando-a sem flego.
- Vamos para a cama - convidou ele, sem parar de beij-la. 
- No posso. Desculpe-me, prometi a Katie -justificou Jenna.
- Vamos ao apartamento de Dean hoje  tarde. S vim perguntar se posso usar o carro. Voc disse que tinha trabalho a fazer...
- Tinha. - Ele tomou-lhe as mos. - Mas posso deixar para a noite. - Ergueu o sobrolho, interrogativo.
Jenna meneou a cabea, pesarosa.
- Se eu no for, Katie ter de pegar um nibus, e sabe como  o transporte pblico aos domingos...
- Maldita famlia! - praguejou ele. - Acho que passa mais tempo com eles do que comigo.
No era verdade, nem era prprio de Marcus exagerar.
- Devo muito a eles.
- Voc no deve nada a nenhum de ns! Exceto, talvez,  minha me.
-        Bem... de qualquer forma, prometi.
Ele a fitou perspicaz.
- Nunca volta atrs numa promessa, no , Jenna?
- No, se puder evitar. Nem voc.
  Marcus ainda lhe segurava as mos. Ela sentiu o toque ficar mais intenso.
- No se casou comigo porque sentia que devia  famlia, no ?
- No! - Constrangida ante o olhar dele, Jenna acrescentou:
-        Eu me casei com voc porque voc me pediu e... e eu queria. Estava certo... eu... eu te amo de verdade, Marcus.
Ele soltou as mos e lhe tomou o rosto.
  -        Obrigado. - Roou os lbios com os polegares e a beijou suavemente. - Estou contando com isso.
  De volta ao lar, mais tarde, Jenna encontrou Marcus estava concentrado em documentos diante de um microcomputador porttil. Ele interrompeu a tarefa quando ela 
disse ol.
- Parece cansada - comentou. - O que andou fazendo?
- Faxina!  espantoso como um lugar pode ficar sujo. Katie disse a Dean que ele morava num chiqueiro. Exagero, claro.
Marcus franziu o cenho.
- Por que ele mesmo no faz a limpeza?
- Acho que est deprimido demais para tanto. Mas ajudou depois que comeamos.
- Vocs duas o acostumam mal.
- Ele est passando por um momento difcil.
- Todos passamos por momentos difceis, s vezes. Ele vai superar, se o deixarem em paz.
- Esse pode ser o seu jeito de lidar com o problema, mas no  o de Dean - opinou Jenna.
- Talvez - concedeu Marcus. - Acha que sou insensvel, no ?
- Sei que voc no . Mas  mais forte do que Dean. Acho que no o entende como...
- Como voc? - completou Marcus. Ento, riu cruel. - Parece que no o entendeu to bem quanto pensava, antes.
  Jenna enrubesceu e sentiu uma pontada no corao  indireta. No era tpico de Marcus ser ferino.
- Eu ia dizer... como Katie entende - corrigiu, com dignidade.
- Mesmo? - Ele a fitava com um olhar semelhante a incredulidade. - E Katie acha que ele precisa dela e de voc para lhe segurar a mo?
- Bem, parece que voc anda ocupado demais para fazer isso! -        No que ela imaginasse Marcus segurando a mo do irmo, mas, nas ltimas semanas, ele com certeza 
se mostrara indisponvel  famlia em inmeras ocasies, alegando trabalho. - Ao menos, podia demonstrar que se importa!
Para surpresa dela, Marcus pareceu constrangido por um segundo.
- Dean sabe que eu me importo. Com certeza, no precisa do meu ombro para chorar tambm.
- Por que anda to ocupado ultimamente, alis? Eu mesma quase no o vejo.
- Sentiu a minha falta? Na maior parte do tempo, ou est com Dean, ou discutindo os problemas dele com Katie.
Jenna engoliu em seco. Talvez assim lhe parecesse.
  -        No  verdade - defendeu-se. - Se ficasse mais tempo em casa, saberia.
Ele a fitou.
- Ponto - concedeu, cauteloso. - Desculpe-me, se anda se sentindo negligenciada.
- Eu no disse isso! Sei que tem um negcio para administrar.
- Tambm tenho de proteger um casamento. - Marcus a avaliava com cautela. - Enterrar minha cabea na areia... ou no trabalho... no vai ajudar em nada, no ?
Jenna ficou confusa.
- Nosso casamento no corre perigo, Marcus. S porque ando passando algum tempo com Dean... - Com certeza, seu marido no estava com cime? - Quero dizer, isso no 
 questionvel.
- Fico contente em saber. - Por um instante, Marcus pareceu analis-la, os olhos escuros estranhamente frios, quase analticos.
-  melhor ir dormir. Vou demorar um pouco ainda.
  Jenna foi se deitar, permaneceu acordada por algum tempo, mas o cansao logo a dominou. Quando Marcus se deitou, ela no despertou e, pela manh, a nica evidncia 
de que ele dormira ali eram as marcas de seu corpo nos lenis e travesseiro.
  Marcus comeou a passar mais tempo em casa, aps aquela noite. Paradoxalmente, Jenna concluiu que estavam se distanciando cada vez mais.
  Ela no saberia dizer o que estava errado, quando o processo se iniciara ou que evento o marcara. O sexo continuava to bom quanto antes, porm ocorria cada vez 
menos e, s vezes, Marcus parecia distante, quase desligado.
  Jenna convenceu-se de que viviam o final do perodo de lua-de-mel, mas com a impresso de que o idlio durara muito pouco.
Evitando a ansiedade quanto  possibilidade de ter um beb, quando sua regra atrasou, no contou nada a Marcus. Queria esperar at ter certeza.
  Katie logo adivinhou. Estavam na casa dos pais dela, dando os ltimos retoques nos pratos do jantar comemorativo do aniversrio da sra. Crossan, quando Jenna largou 
de repente o saco de confeiteiro com que decorava um bolo e correu ao banheiro.
Quando ela voltou, Katie parou de fatiar os morangos e deduziu:
- Voc est grvida, no est?
- Ainda  cedo para ter certeza, e eu no disse nada a Marcus. No comente com ningum, sim?
- No vou dizer nada - prometeu Katie. - Acha que Marcus no desconfia? Deve ser difcil esconder algum segredo dele.
- Estou tentando, por enquanto. - Se estivesse mesmo grvida, Jenna queria surpreend-lo, na esperana de que a novidade os aproximasse novamente. Contudo, experimentava 
uma sensao sombria, que tentava dispersar.
-  provvel que ele descubra, mais cedo ou mais tarde.
- Vou contar, claro, no tempo certo.
  Jenna voltou-se ao pensar ouvir passos no corredor, mas no havia ningum por perto.
Na volta para casa, Marcus passou-lhe a chave do carro.
-        Bebi demais - justificou.
  De fato, ele bebera mais do que o normal. Mas, estando com a famlia e sabendo que ela no exageraria, ele devia ter achado seguro.
  Marcus apoiou a cabea no apoio da poltrona e fechou os olhos. Jenna imaginou se ele ia dormir, mas, quando entrou na garagem, ele estava desperto e alerta, saltando 
rapidamente para contornar o veculo e lhe abrir a porta.
Seguiram para o elevador.
  Marcus abriu a porta do apartamento. Estava escuro no vestbulo, e Jenna procurou o interruptor, encontrando os dedos dele no caminho.
  Ele lhe apertou a mo, e a luz permaneceu apagada. No escuro, ele sussurrou seu nome e a puxou para si. Ela deixou cair a chave do carro.
  Febril, Jenna espalmou a mo no trax musculoso, sentindo o calor do corpo dele atravs do tecido da camisa. Inebriada pelo cheiro masculino, levantou o rosto. 
A viso ajustou-se, e discerniu as feies dele, apesar da escurido.
  Marcus beijou-a, surpreendendo-a com a intensidade e a paixo primitivas. Sem rodeios, ele a tomava com quase agressividade.
  Jenna imaginara que o vinho em excesso o deixaria letrgico, mas no havia letargia alguma naquele homem. Permaneceu passiva por alguns segundos, tentando se equiparar 
ao nimo dele, aps imaginar que iriam direto dormir.
  Marcus a segurou com fora pela cintura. Sem flego, Jenna agarrou-se aos ombros dele para manter o equilbrio, e ento o enlaou ao pescoo.
  Ela estava cansada, mas sentia o corpo despertar com o estmulo, o corao disparado.  medida que a paixo crescia, experimentava arrepios pelo corpo.
  Marcus a encostou na parede e lhe apalpou os seios sem muita gentileza, despertando essa zona ergena tambm. Quando ele agarrou a frente do vestido, ela temeu 
que o rasgasse, mas ele abafou seu protesto com um beijo. Ele encontrou o zper nas costas e o abriu com um movimento preciso. Mais hbil ainda, puxou as alas, 
desnudando os ombros, e a livrou do suti.
  Quando vestido e pea ntima caram no cho, ele recuou um passo.
  -        Marcus, tome cuidado... - pediu Jenna, referindo-se ao caminho s escuras.
  Ele a ergueu nos braos e carregou para o quarto, fechando a porta com o p antes de deposit-la na cama.
  Jenna observou o marido se despir, aproveitando para recuperar o flego. Ento, ele se deitou a seu lado e -a privou das ltimas peas de roupa.
- Marcus? - chamou ela, nervosa com aquela seduo silenciosa e rude.
- Cale-se - ordenou ele, para espanto dela.
  De repente, Jenna sentiu medo. Era ridculo, assegurou-se. Marcus estava sob efeito do lcool, mas nunca a machucaria, nunca a foraria. Confiava plenamente nele.
  Mesmo assim, ficou tensa quando ele a agarrou. Ele devia ter percebido. Embora estivesse pronto, conteve-se e, enquanto se acalmava, passou a toc-la com mais 
gentileza.
  Sem dizer nada, ele a beijou na testa, no rosto, no pescoo, entre os seios... Tambm a massageou, conhecedor, detendo-se na cintura, nos quadris, nas coxas, dedicando-se 
ento, passou a explorar a feminilidade.
  De um jeito perturbador, ele a beijou em todo lugar, exceto na boca, at ela sentir o corpo queimar de desejo, e passar a implorar, desesperada:
  -Marcus... por favor, beije-me!
  Ele aplicou um beijo irresistvel, mistura perfeita de ternura e paixo, e ela respondeu com o corao e a alma. Ainda se beijavam quando ele se deitou de costas 
e a fez se agachar sobre seu sexo.
  Ela se ajustou e suspirou de alvio, movendo-se prazerosamente com ele, at que o xtase veio, rpido demais. Ela ainda experimentava a sensao de prazer quando 
Marcus ficou por cima e introduziu-se mais, levando-a a outro momento de xtase, que se tornou mais intenso por ela saber que ele tambm atingira o orgasmo. Quando 
achava que a sesso terminara, ela teve de se agarrar aos ombros dele novamente, ouvindo o riso de triunfo. Marcus observou-a mordiscar o lbio enquanto a levava 
novamente ao paraso.
  Ela o amava. De todas as formas, ela o amava. A revelao era perturbadora demais.
  Minutos depois, Jenna abriu os olhos e viu Marcus apoiado no cotovelo, ainda observando-a. O luar iluminava o quarto, mas ela s via o brilho dos olhos dele.
-        Marcus...
Ele encostou um dedo em seus lbios.
-        No fale. No esta noite.
  Jenna no discutiu. Sentia-se agradavelmente exausta... saciada. Quase mencionou a possibilidade de estar grvida, mas, se estivesse enganada, no queria v-lo 
desapontado.
  Pela manh, ela encontrou o marido desperto e observando-a novamente, a expresso preocupada.
- No ficou assim a noite inteira, ficou?
- No. Voc est bem?
- Claro.
- Desculpe-me se fui um tanto... insensvel ontem  noite.
- Voc no foi. - Ela o fitou cautelosa. - Mas geralmente no bebe tanto.
O olhar dele obscureceu-se de repente.
- No, no bebo. E no vou beber novamente.
- No estou ralhando, Marcus. - O episdio lhe reafirmara que Marcus sempre asseguraria que ela tivesse prazer tambm. No era egosta.
- No - reconheceu ele, e Jenna ficou confusa com a aspereza no tom. - Voc nunca ralha, no ? A esposa perfeita.
Jenna ergueu o sobrolho.
- No sou perfeita... O que fiz para irritar voc?
- Por que pensa que me irrita? - rebateu ele. - S fiz um elogio.
Fizera? Parecera mais uma acusao. Antes que pudesse questionar, Marcus saiu da cama e trancou-se no banheiro.
Jenna concluiu que imaginara o tom spero, ou talvez a sonolncia imprimisse aquele efeito. Nos dias seguintes, Marcus foi mais carinhoso... supondo que o termo 
traduzisse sua considerao, preocupao e ateno extremas. Ela imaginou se ele desconfiava da possvel gravidez.,
- Est emagrecendo? - indagou ele, certa manh, quando ela mordiscava uma torrada.
- No! - Na verdade, no sabia se perdera peso, s que o palpite dele a surpreendia. Naquela manh, acordara enjoada, mas, na maior parte do tempo, sentia-se bem. 
No tivera de correr ao banheiro, exceto dias antes na casa dos Crossan. Desde ento, evitava alimentos gordurosos e desviava o olhar ao passar diante de padarias.
Marcus comeu uma torrada.
- Devia tomar o caf da manh direito - aconselhou. - S torrada e suco no so suficientes. - Tinha dois ovos cozidos no prato. - Pegue um ovo.
- No! - protestou Jenna. - No estou acostumada a comer muito logo cedo. Fico meio... inchada. - Na verdade, tinha certeza de que ficaria enjoada. J se sentia 
empalidecer.
O marido emitiu som de desdm. Jenna mudou de assunto:
- Tem planos para o fim de semana?   .
- J ia lhe contar. Ted e Angela nos convidaram para um passeio de iate. Sada na sexta-feira  noite.
 Velejar em guas instveis no parecia um programa atraente aquele momento. Jenna sentia o estmago se revirar s de pensar, larcara consulta mdica para a sexta-feira 
aps o trabalho.
- O fim de semana todo?
- Algum problema?
  Jenna engoliu em seco a decepo. Imaginando que o mdico confirmasse o teste que ela j realizara escondido, mais alguns dias sem contar a Marcus no fariam diferena. 
Ele adorava velejar... tinha at planos de construir o prprio barco.
- Por que voc no vai? Katie me convidou para ir com ela a uma feira de livros neste fim de semana. Eu me comprometi... - No era bem verdade, mas procurava escapar 
do enjoo martimo.
- Voc no comentou nada.
- Voc tambm no comentou o convite de Ted. Vou telefonar para Angela e explicar. No temos de fazer tudo juntos, no ?
Marcus afastou o prato vazio e levantou-se.
- Est se sentindo pressionada, Jenna?
- Por que diz isso?
- Exceto pela happy hour na sexta-feira com os colegas de trabalho, voc passa a maior parte do tempo comigo, ou com minha famlia. Estamos lhe dando espao suficiente?
- Tenho todo o espao de que preciso. - Jenna imaginou se ele se sentia tolhido. Acostumara-se a viver s, sem uma esposa fazendo exigncias emocionais. Talvez por 
isso preservasse uma espcie de distncia entre eles. Estavam casados havia seis meses, mas nem por isso ela o conhecia melhor do que antes do casamento.
  Contaria sobre o beb rio domingo, quando ele estivesse relaxado e contente com o fim de semana velejando. Prepararia um jantar s para os dois, sem nenhuma distrao 
ou outros compromissos. Se estivesse certa.
  Estava. O mdico confirmou a gravidez na consulta na sexta-feira, e Jenna mal coube em si de alegria. Temerosa de confiar na prpria suspeita e no teste de farmcia, 
apesar da preciso, conti-vera as emoes durante todos aqueles dias. Agora, queria contar a todo o mundo... mas principalmente a Marcus.
  Ao chegar em casa, descobriu que o marido acabara de sair para seu fim de semana no iate dfe Ted e Angela. Ele deixara o carro para ela e Katie irem  feira de 
livros.
  Na feira, Jenna flagrou-se divagando, imaginando como seria o beb... um menino de cabelos castanho-escuros e olhos cinza como os de Marcus, ou uma garotinha linda.
  -        Almoo - anunciou Katie, ao encerramento da discusso do painel que escolheram para assistir. - O que vai querer?
- Nada. Talvez um pozinho...
Katie olhou-a desconfiada.
- J foi ao mdico?
Jenna esquivou-se.
- No posso revelar nada at falar com Marcus.
A amiga adivinhou e quase gritou de excitao.
- No contou a ele?
  -        S tive a confirmao ontem, e ele saiu para velejar neste fim de semana.
Katie abraou-a.
-        Est feliz?
Jenna sorriu.
- Estou tentando no demonstrar. - Poupava-se para o momento em que contasse a Marcus.
- Vou ser tia do beb da minha melhor amiga! - Katie abraou-a de novo. - Oh,  maravilhoso!
  Katie paparicou Jenna durante o resto do dia, fazendo-a alimentar-se e chegando cedo aos eventos para pegarem bons lugares.
  Na manh de domingo, Jenna tentou ligar o carro, mas deixara os faris acesos e a bateria descarregara. Voltou ao apartamento e telefonou para Katie, que a aguardava 
para irem de novo  feira de livros.
  -        Dean est aqui - informou a amiga. - Ele pode nos levar. Vamos passar a daqui a pouco.
Na rua, Dean viu o pster de um livro sucesso de vendas.
- Eu li esse livro - comentou, mostrando a capa com uma alpinista numa expedio ao Himalaia.
- Ela vai dar palestra agora de manh - comentou Katie. - Por que no compra uma entrada e vem tambm?
- Com todas essas mulheres?
Elas usaram de mais persuaso, e Dean finalmente concordou.
-        Bem, no tenho nada melhor a fazer, acho.
Ele foi comprar as entradas, e Jenna comentou com Katie:
- Ele ainda est sofrendo, no ?
- Callie telefonou na semana passada - contou Katie.
- Telefonou? Para qu?
- S para ver como ele estava, parece.   .
- Ela ainda se importa.
- Acho que sim. Mas, se no vai voltar, no devia alimentar as esperanas dele.
  Surpreendentemente, Dean ficou o dia inteiro na feira e, aps assistir  palestra de uma psicloga especialista em relacionamentos entre homem e mulher, comprou 
o livro de autoria dela.
  No final da tarde, Dean deixou Katie em casa primeiro, e ento ajudou Jenna com a bateria do carro, fazendo uma ligao com o seu. Depois, aceitou um caf.
  Conversaram um pouco e assistiram  primeira parte do noticirio na televiso. De repente, Dean voltou-se para ela.
- Est grvida?
- Katie contou?
- No, mas percebi como estava cuidadosa com voc, dando muito apoio. No  tpico dela.
-        Ainda tenho de contar a Marcus.
Dean sorriu.
- Ele vai ficar nas nuvens. - Diminuiu o sorriso. - Estou com cime.
- Oh, Dean! - Jenna o abraou para consol-lo. - Vai dar tudo certo.
Ele a abraou tambm, ocultando o rosto nos cabelos macios.
- Ela me ligou... Callie.
- Eu soube. J pensou em ir v-la?
- No penso noutra coisa, mas estou dividido. Tenho vontade de pegar um avio amanh... esta noite... e for-la a se casar comigo. Acho que ela se casaria. Mas 
em trs, seis meses ou um ano, talvez, descobriria que foi um erro, afinal.
- Tem certeza de que no consegue arranjar um emprego l?
- Legalmente, no, a menos que me case.
-        Ento... por que no fazem isso?
Ele franziu o cenho.
- O problema  que parece chantagem convenc-la a se casar comigo para eu poder trabalhar nos Estados Unidos.
- Mesmo que seja porque a ama e quer estar com ela?
- Veja, j consegui persuadi-la a vir para c comigo, mas ela no conseguiu se comprometer a ponto de se casar. O noivado foi um tipo de compromisso. No posso pression-la 
novamente. Mas eu a amo tanto...
- Detesto ver voc sofrendo assim.
- As vezes,  preciso conviver com alguns erros, pois tentar consert-los pode piorar tudo.
- Pode ser pior do que j est? Duas pessoas que se amamdeviam ficar juntas! Devia haver um modo...
- No  to fcil. Como se sentiria se eu lhe pedisse para escolher entre sua famlia e o homem que ama?
  Jenna no tinha uma famlia como a de Callie, mas j desejara tanto isso que no foi preciso imaginar o dilema.
  -        Acho que seria como perder uma perna ou um brao. - Mas, tendo de optar, claro, ficaria com Marcus. Disso no tinha dvida.
  Um movimento chamou-lhe a ateno. Voltou a cabea e viu Marcus parado no vestbulo.
  Dean ficou surpreso tambm, e enxugou uma lgrima discretamente. Jenna foi ao encontro do marido para dar a Dean tempo para se recompor.
- No ouvimos voc chegar - comentou, em voz bem alta, pois a televiso ainda estava ligada. - No o esperava to cedo.
- Aparentemente, no.
- Oi, Marc. Como foi a pescaria?
- O que faz aqui? - questionou Marcus, ameaador.
- Dean me trouxe para casa. O carro no pegou hoje cedo... a bateria descarregou.
- No havia nada errado com a bateria quando voltei para casa na sexta-feira.
- Deixei os faris acesos, mas j resolvemos o problema. Dean deu uma carga na bateria, e ento o convidei para um caf.
  Por que tudo aquilo? Nunca sentira necessidade de se explicar ao marido... e Dean era da famlia!
-        Eu j estava de sada.
  Dean dirigiu-se  porta, mas Marcus permaneceu bloqueando a passagem. Somente aps avaliar o irmo mais novo, ficou de lado, voltando a ateno a Jenna.
Dean voltou-se constrangido.
- At mais. Obrigado pelo caf, Jenna.
- Obrigada - replicou ela. - Pelo carro e tudo o mais.
  Um silncio tenso instalou-se quando a porta se fechou atrs de Dean.
- Quanto tempo ele ficou aqui? - indagou Marcus.
Jenna piscou.
- No sei... meia hora, acho, depois de carregar a bateria.
- No ficou o fim de semana todo?
Ela arregalou os olhos, atnita.
- No. Foi  feira de livros hoje, comigo e com Katie. Ontem  noite, ele ficou no apartamento de Katie.
- E onde voc estava ontem  noite?
- Aqui, claro! Marcus... est parecendo um marido desconfiado!
A ideia era to ridcula que Jenna teve de rir.
- E estou. Ou no tenho motivo para desconfiar?
- Eu j disse, Dean no deu carona, porque o carro no pegou hoje cedo. Ele foi  feira de livros conosco.
- No  o tipo de programa que ele aprecia - comentou Marcus, ctico.
- Pergunte a Katie se no acredita em mim.
- Katie sempre d suporte ao gmeo dela. E a voc tambm. Vocs trs esto sempre juntos!
- No somos mais crianas!
- No - confirmou Marcus, irnico. -  exatamente o que eu quis dizer.
CAPTULO XI

Jenna sentiu-se zonza.
- No acredito! - A briga avanara to de repente, arruinando seu plano de uma noite tranquila e amorosa, com a revelao de seu segredo feliz. - Voc est com cime!
- Pode apostar que estou - confirmou Marcus, o olhar frio, a expresso tensa.
- Voc sempre teve cime! - percebeu ela. Ele no se enfurecera s por flagrar a esposa abraada a seu irmo inocentemente.
  Remontava  infncia, quando ela e os gmeos eram quase inseparveis, e Marcus, o irmo mais velho, era quase um "deles"... dos adultos. Ele no pertencia ao crculo 
fechado dos trs.
Marcus ficou sombrio e remexeu o maxilar.
- Eu tenho um direito agora.
Um direito a qu?
- De me acusar? De que exatamente est me acusando, Marcus?
Ele no respondeu, o olhar fixo, colrico.
  -        O que acha que fiz? - desafiou Jenna. - Que passei o fim de semana na cama com Dean? Na nossa cama? Acredita mesmo nisso?
Marcus empalideceu.
  -        No - respondeu, como se forasse as palavras. Levou a mo  testa e fechou os olhos. Ela pensou v-lo cambalear. - No - repetiu Marcus, e baixou a mo.
Ele parecia cansado.
  -        Peo desculpas, Jenna. Com licena... preciso de um banho, e minhas roupas esto cheirando a peixe. Ted levou tudo o que pescamos para defumar.
  O comentrio banal no dissipou a tenso no ar. Marcus deixou a sala antes que Jenna recuperasse o flego e, logo depois, ela ouviu o barulho do chuveiro. Marcus 
demorou no banho e depois foi colocar as roupas na mquina de lavar.
  Enquanto isso, apesar das pernas bambas, Jenna foi  cozinha preparar o jantar de comemorao que planejara.
  A salada de frango com castanhas de caju estava semipronta desde o dia anterior. O prato ficava melhor aps um dia marinando no molho especial, e faltava apenas 
decorar com aspargos e fatias de amndoas torradas. Mecanicamente, rasgou folhas de alface, fatiou tomates e abacate e temperou tudo com vinagrete.
  Como as velas em candelabros de cristal no pareciam mais apropriadas, deixou-as no balco da cozinha, tirou a garrafa de champanhe na geladeira e escondeu-a na 
despensa. Pensara em tomar um gole ou dois, para comemorar a chegada do beb, mas, aps a discusso, perdera a vontade.
  Optou por servir vinho branco para Marcus e gua mineral para si mesma.
  Jenna levava a salada para a mesa quando Marcus voltou, os cabelos midos e o rosto recm-barbeado. Ele usava camisa branca aberta no colarinho e cala escura. 
Fitaram-se por um segundo, e ento ele sentou  mesa.
-        Parece timo.
Uma bandeira de paz, talvez?
  Jenna enganchou uma mecha dos cabelos na orelha e se acomodou diante do marido. Planejara tomar banho e vestir algo bonito, mas no tivera tempo. A blusa de algodo 
com cala jeans teriam de servir. Provavelmente, a maquiagem que aplicara antes j se perdera, mas nada disso parecia mais importante.
  Erguendo as tigelas de salada, serviu-se das verduras e uma poro de frango.
Marcus serviu-se tambm, e reparou na poro miservel dela.
-        Com certeza, pode comer mais que isso - ralhou.
Jenna no sentia fome alguma.
- Pegarei mais, se sentir vontade. - Ps na boca um bocado de frango desfiado e teve de se esforar para mastigar e engolir.
Decidiu iniciar uma conversa descontrada. - Foi muita gentileza de Ted levar o peixe para defumar.
- Ele e Angela mandaram um beijo.
Jenna assentiu e forou-se a acabar o pouco de que se servira.
- A pescaria deve ter sido boa. Talvez eu possa fazer uma salada de peixe... Ou voc prefere assado?
- Como voc quiser.
Tratavam-se com educao, e Jenna teve vontade de chorar. Terminou sua poro e esperou que Marcus acabasse a dele.
-        Quer mais? - indagou ela.
  Ele afastou o prato, meneou a cabea e, ento, obrigatoriamente, elogiou:
-        Estava delicioso.
Jenna tinha certeza de que ele degustara to pouco quanto ela.
- Tem mousse de maracuj. Vou pegar.
- No quero! Jenna... sente-se.
  Ela obedeceu, esperando que ele se manifestasse novamente. Marcus tateava a taa de vinho, fitando atravs do cristal.
-        Tem algo para me contar?
  Ele sabia? Jenna prendeu a respirao e controlou a vontade de rir histericamente. Todos pareciam capazes de adivinhar sem ser notificados. Seria to bvio?
Tentou sorrir. Uma briga tola no podia estragar aquele momento.
  -        Sim, tenho - confirmou, e viu o marido fechar o punho em torno da taa com tanta fora que achou que o cristal cederia. - Estou grvida.
  Jenna achou que o silncio perduraria para sempre. Era como se o mundo tivesse parado. Ento, Marcus relaxou os dedos devagar. Ela pensou que ele se levantaria 
para abra-la, mas ele fechou o punho sobre a mesa.    
  -        Grvida - repetiu, como se nunca tivesse ouvido a palavra antes. - Oh, cus!
  Marcus afastou a cadeira, levantou-se e deu as costas  mesa. Ento, voltou-se.
Jenna no entendia aquela reao.
-        No est feliz?
  Marcus no parecia nada feliz. Parecia no saber o que sentir. Algo surgiu nos olhos dele, mas logo desapareceu.
- Voc est? - questionou.
- Eu estava. - Mas algo dera errado, de algum modo. - Pensei que quisesse uma famlia!
- O que eu quero... - comeou ele, num tom zangado, e interrompeu-se. Quando voltou a falar, a voz saiu'perfeitamente controlada. - A questo , o que voc quer, 
Jenna? O que voc realmente quer mais do que tudo?
  Era uma pergunta estranha para se fazer naquele momento. Ela simplesmente no compreendia.
  -        Ter este beb... dar a ele um lar cheio de amor, segurana, uma infncia feliz. Tudo o que os pais querem para os filhos.
  -        Tudo o que voc no teve.
  O comentrio pegou-a de surpresa. Jenna nunca pensara em si mesma como uma criana negligenciada ou desprovida de uma vida normal. Sempre houvera outras crianas 
a viver s com a me.
  -        No foi fcil para minha me quando meu pai morreu, e ningum, at conhecermos sua me, percebeu que ela sofria de depresso e podia ser ajudada com orientao 
mdica. Mas ela me amava e fez o melhor por mim. - Embora, s vezes, a me parecesse distante, mal se lembrando de que tinha uma filha. - E a sua famlia me deu 
bastante sobra de amor.
-        Sobra de amor? - indagou ele. -  assim que pensa?
Jenna escolheu bem as palavras:
  -        O excesso que transbordava, talvez. Havia muito amor na sua casa. Sua me sempre esteve l para mim, cobrindo as falhas.
E os gmeos.
Marcus tambm estivera presente para ela... ele recolhera os pedaos de seu corao despedaado por Dean e o consertara. Ele mostrou mais uma vez que podia ler seus 
pensamentos.
- E Dean?
- Est acabado - assegurou Jenna. - Voc tinha razo, eu devia ter crescido bem antes. No sei o que pensou quando entrou aqui esta noite, mas no era... nada com 
que deva se preocupar.
- Ganhou confiana. - Voc  meu marido, o pai do meu filho...
- Fez pausa, mas a expresso dele no se alterou. - O homem com quem pretendo passar minha vida, -at o fim. Eu te amo.
  Aquela percepo liberou algo dentro dela, como uma estrela nascendo. Amava Marcus de todas as formas... como amigo, amante, a pessoa com quem queria estar para 
sempre. Ele era tudo o que ela sonhara para si, e mais.
  -        Muito nobre - reconheceu ele, as palavras contundentes. - Estou emocionado.
Jenna franziu o cenho, a cabea latejante.
- Marcus... por favor!
- Esse caos lamentvel  culpa minha. Nunca devia ter pedido para que se casasse comigo.
Jenna sentiu um aperto no corao.
  Ela acabara de declarar que o amava, e ele a rejeitava. Demorara muito para esclarecer seus sentimentos? Ou ele descobrira que se casar com ela no bastava para 
faz-lo feliz?
  Marcus nunca declarara am-la... no como amara aquela mulher misteriosa que despedaara seu corao. O casamento deles se baseava em afeto mtuo, em compreenso 
e no fato de se conhecerem havia muito tempo, alm da centelha sexual, que os surpreendera.
Agora, a mgoa e o ressentimento lhe causavam pnico.
- O que quer dizer com isso? - indagou Jenna, erguendo a voz. - Vou ter um filho seu!
- E isso  culpa minha tambm - reconheceu Marcus. - Eu nunca devia ter permitido que voc...
- Se est arrependido,  tarde demais. No vou fazer um abor to, Marcus!
Ele empalideceu.
- Eu no sugeri isso!
- Ento, o que est sugerindo? Pensei que fosse isso o que queramos.
Marcus refletiu.
  -        Eu estava errado - concluiu. - Eu me convenci de que daria certo, que eu faria dar certo por ns dois. Respeito sua integridade, Jenna, sua determinao 
em tomar a atitude correta. Voc fica dizendo que no tenho motivo para sentir cime, que pretende honrar os votos... Mas... eu fui avarento.
-        Avarento?
Ele sorriu torto.
  -        Eu a forcei a assumir um casamento, embora tenha prometido a mim mesmo... e a voc..fque no faria isso. Eu devia saber que sobras de amor nunca seriam 
o bastante.
E aquilo era tudo o que Marcus podia lhe dar?
-        Mas ento... era tudo o que esperava de mim? Sobra de amor?
No era culpa dele, se ela se apaixonara irrevogavelmente e ele no podia lhe corresponder.
Jenna se levantou e passou a recolher os pratos mecanicamente.
-         verdade. Aquilo foi tudo o que pedi - afirmou ele.
Ela enrubesceu de humilhao.
  -        Bem, desculpe-me - murmurou, retirando-se da sala de jantar antes que ele visse seu pranto. - No posso fazer nada, se conseguiu mais do que esperava.
  Com a viso totalmente embaada pelas lgrimas, ao pousar os pratos no balco, enganou-se. Um prato caiu no cho e partiu-se em dois, facas e garfos espalharam-se 
pelo cho.
  Jenna estava de joelhos recolhendo os cacos quando Marcus surgiu  porta.
- O que aconteceu?
- O que voc acha? Deixei o prato cair, ora.
Ele se inclinou e ajudou a recolher os talheres, mais o prato que no se quebrara. Levou tudo  pia e embrulhou os cacos num jornal para jogar fora depois.
  Jenna no queria encarar o marido e comeou a lavar a loua. Tinham mquina, mas costumava us-la apenas quando recebiam visitas.
  Aplicou mais detergente na bucha e esfregou o prato remanescente, sentindo a presena de Marcus bem perto. Ficou tensa.
- No quis magoar voc - declarou ele. -  que a novidade me pegou de surpresa...
- Pensei que voc j soubesse. Que desconfiasse, pelo menos. Todo mundo conseguiu descobrir.
- Todo mundo?
- Katie adivinhou, e tenho certeza de que sua me j sabe, embora no tenha dito nada. At Dean... - Jenna pousou o prato no escorredor e passou a enxaguar os talheres.
- Oh, sim, Dean. G grande abrao era por isso?
  Jenna mergulhou os talheres na gua com detergente novamente e voltou-se.
- Que grande abrao?
- Voc e Dean - esclareceu Marcus, impaciente. - Decidindo viver com seu erro.
Ela levou alguns segundos para entender.
- Erro de Dean! No meu.
- Ele finalmente percebeu o que perdeu, o que poderia ter tido se no tivesse sido to cego durante todos esses anos?
- Andou bebendo antes de voltar para casa? - Era a nica explicao que ela conseguia imaginar para aquelas acusaesagressivas e concluses sem lgica.
- Estou sbrio.
-        Ento, qual  o seu problema? Como pde pensar...
Marcus apoiou as mos no balco, uma de cada lado de Jenna, prendendo-a.
  -        O problema comeou antes de me casar com voc... Fui idiota o bastante para me apaixonar por uma garota to encantada por meu irmo que nem sabia que 
eu existia. E ainda mais idiota quando me iludi achando que o casamento faria um milagre e ela passaria a me amar tambm.
Jenna estava boquiaberta.
- Eu? Voc estava apaixonado por mim?
- Quando voltei da Inglaterra e descobri que a garota desajeitada de que me lembrava tinha se transformado numa mulher encantadora, e sem perder as qualidades que 
eu tanto adorava. Nunca imaginou, no ? No, jamais.
-        Mas voc nunca disse... nunca... nunca fez nada!
Marcus franziu o cenho.
  -        Era bvio que voc s tinha olhos para Dean. Eu imaginava s vezes se ele se sentia da mesma forma.  difcil dizer, pois Dean esconde as emoes, quando 
as tem, atrs daquela fachada juvenil.
E no  verdade que eu nunca disse nada.
Jenna no entendeu.
- No me lembro de nada que possa ter...
- Dei muitas dicas, mas voc nunca percebeu. Como era intil e s haveria constrangimento, desisti. Certa hora, pensei jogar tudo para o alto... eu a queria tanto 
que arriscaria qualquer coisa... seu desdm, magoar Dean, causar um rompimento na famlia. Quando ele foi estudar nos Estados Unidos...
- Por que no...
- Teria sido jogo sujo, no? Esperar ele sair do pas e ento atacar?
  Jenna vagamente entendeu como ele se sentira. Teria sido traioeiro e injusto agir daquela forma.
- Eu estava com as mos amarradas - resumiu Marcus. - Eu me convenci de que havia outras mulheres que no eram obcecadas pelo namoradinho de infncia, mulheres que 
no abala riam o seio da minha famlia, talvez causando uma ruptura. Mas no conseguia tirar voc da cabea, do corao...
- Eu no imaginava!
- Eu sei! - Marcus expressou angstia. - Estraguei sua vida, Jenna... a sua e a do meu irmo. Lamento muito mesmo.
Ela o agarrou pela camisa.
- Marcus... eu te amo!
- Oh, claro. Assim como ama meus pais e Katie... com a vantagem de ter sexo tambm.
- No, voc no entende! - Jenna tentou chacoalh-lo, mas s conseguiu desprender um boto da camisa, que caiu e rolou pelo cho. - Marcus... no  a mesma coisa, 
... - O que sentira por Dean era vapor comparado ao oceano que era seu amor por Marcus.
- No preciso de migalhas, Jenna - dispensou ele, rude.
Naquele instante, o telefone tocou.
- Deixe tocar - pediu ela, mas ele foi atender.
- Sim?
Jenna o viu franzir o cenho.
-Quanto? - indagou Marcus. - Por qu?
  Marcus ouviu com ateno e fitou Jenna com uma expresso estranha. Houve uma longa pausa.
  -        Sim, ainda estou aqui. Claro que empresto. Eu lhe disse, quando quiser. Sei que vou receber de volta, no que isso importe. Venha ao escritrio amanh 
e estar tudo pronto.
Ele desligou e fitou o aparelho, pensativo.
- Era Dean - explicou Marcus, atnito, confuso. - Pediu um emprstimo para poder viajar aos Estados Unidos.
- Ele vai atrs de Callie?
- Parece que sim.
- Oh, timo!
- ?        .
- Claro! - afirmou Jenna, impaciente. - Agora acredita em mim? No  Dean que eu quero, Marcus.  voc.
Ele levou a mo  testa.
- Ento, sobre o que conversavam quando cheguei?
- Sobre Callie, claro!
- Callie?
- Dean no queria for-la a escolher entre ele e a famlia. Mas ela telefonou na semana passada e acho que lhe deu alguma esperana. Dean a ama muito.
-        E voc no se importa?
Como conseguiria convenc-lo?
- Eu no estou apaixonada por Dean! Sei que achava que eu estava, mas isso era s o que voc disse que era... um sonho de criana. Voc me fez ver isso! Por que 
no aceita o fato?
- Sobre o que voc e Katie conversavam no aniversrio de minha me? - Como Jenna no entendeu, ele especificou: - Na cozinha, antes do jantar.
- Oh! Ela adivinhou que eu estava grvida. Eu a fiz prometer que no contaria nada, porque queria que voc fosse o primeiro a saber. Confirmei na sexta-feira, mas 
voc foi pescar, e eu no queria contar de qualquer jeito... Bem, tinha preparado um jantar especial, com champanhe gelado e tudo, mas... - Deteve-se, pois estava 
trmula e no queria chorar.
- Aps semanas de reflexo, eu tinha decidido que a nica atitude decente era liberar voc para ficar com Dean - completou Marcus. - Porque no podia mais prend-la, 
se ele estava livre. Ento, voc disparou a notcia do beb. E fez aquele discurso corajoso sobre passar a vida comigo.
- No foi corajoso! - protestou Jenna. - Foi sincero.
   Como se no tivesse ouvido, Marcus continuou:
- Eu imaginava se estava tentando convencer a mim ou a si mesma. Bem quando eu decidia consertar a situao, era tarde demais. Um beb complicava tudo ainda mais. 
As implicaes eram horrveis. Mesmo assim... no pude evitar a alegria ao saber que voc.est carregando um filho meu. No pude deixar de querer a criana e voc. 
Embora voc tivesse de se prender a um casamento que eu sabia ser um erro.
- Oh, Marcus! No foi um erro! Foi a melhor coisa que j fiz. O que tenho de dizer para convencer voc do meu amor? Eu te amo no como um irmo... mas como amante 
e marido maravilhoso, sexy e incrivelmente atencioso.
As lgrimas brotaram, e ela reprimiu um soluo. O estresse das ltimas horas cobrava seu preo, e ela sentiu a sala girar. Marcus apressou-se a ampar-la.
- Eu no quero ser livre! - Jenna se agarrou ao pescoo de Marcus enquanto ele a carregava para o quarto. - Quero ser sua esposa, ter os seus filhos e am-lo para 
sempre! - declarou, passional.
- Shh - pediu ele, ao instal-la na cama. - No se mexa.
  Jenna permaneceu deitada, as lgrimas umedecendo o travesseiro, enquanto Marcus ia ao banheiro e voltava com uma toalha mida para colocar em sua testa.
- Est melhor? - indagou ele.
- Sim. Desculpe-me por isto. A gravidez faz coisas engraadas com a mulher...
- No sei dizer o quanto estou arrependido! O cime faz coisas estranhas ao homem - parafraseou ele. - Estou me controlando h tanto tempo e, no final, no consegui 
manter o animal na jaula.
- Oh, por favor, no faa isso! Voc no precisa se sentir assim. - Ela buscou a mo forte e beijou-a. - Marcus, meu querido Marcus... eu te amo exatamente como 
voc . E, se no acreditar em mim desta vez, acho que vou morrer.
Ele lhe apertou a mo.
  -        Se  verdade, ento sou o homem mais feliz do mundo. E o mais felizardo tambm.
Jenna sorriu.
- Voc  o homem mais feliz do mundo e eu sou uma mulher de sorte.
- Jenna...
  Ela estendeu os braos e ele se achegou. Aps sussurrar seu nome, ele a beijou exigente.
  -Eu te amo - sussurrou Jenna, e desabotoou-lhe a camisa para beij-lo no trax.
Ele abriu o zper da cala jeans dela e tocou o ventre macio.
- No vejo nenhum sinal do nosso beb.
- Ainda  muito cedo. Mas meus seios j esto mudando.
- Posso ver? - Marcus tocou no suti, e ela soergueu-se um pouco para remover a pea. - Voc est enrubescendo - provocou, afagando-a com cuidado. Jenna sentiu o 
corao disparar e o corpo se aquecer, sensual. - Esto lindos - elogiou ele, apalpando os volumes tenros. - Voc est linda.
- Talvez no diga isso daqui a alguns meses.
- Sempre direi isso - afirmou ele. - Mal posso esperar para ver voc de barrigo. Lamento tanto...
Jenna o calou com um dedo.
- S faa amor comigo, por favor.
- Quero fazer amor com voc, noite e dia, pelos prximos cinquenta anos ou mais.
- Ultimamente, tem falhado...
Ele a beijava nos ombros, parou e ergueu o olhar.
  -        Fiquei com tanta raiva por Dean ter rompido com Callie.
Voc sempre o consolando... e tinha tanta certeza de que se arrependia de ter se casado comigo, quando podia t-lo finalmente...
No queria trazer toda aquela raiva e amargor para a nossa cama, no queria estragar nosso ato de amor.
  E ela no imaginava o que ele sentia, o quanto sofria. Como pudera ser to cega? Mas Marcus tinha prtica em ocultar as emoes. Escondera dela e de todos os sentimentos 
durante anos a fio.
  Ela acariciou os cabelos dele, para aliviar a mgoa do passado e assegurar o futuro.
- Katie e eu...
- Eu sei, Dean precisava de apoio, conforto. Voc e Katie correram para junto dele, como sempre. - Ele a beijou na boca.
- E foi s isso, Marcus. - Jenna queria que ele aceitasse a verdade. - Estava dando apoio a um amigo. Oh... - deliciou-se, quando ele passou a beij-la mais para 
baixo. - Isso... faa de novo.
- Com prazer - ronronou ele, e obedeceu. Ela agarrou-lhe os cabelos. - No estou machucando?
- No! - tranquilizou Jenna, ofegante. - Se tivesse me contado como se sentia... mesmo quando me pediu em casamento.
  Ela declarara seu amor tardiamente, mas ele tambm no dera indicao de seus verdadeiros sentimentos.
  Marcus ergueu o joelho dela e lhe acariciou a coxa.
  -        Achei que isso a assustaria - justificou. - Conhecendo-a, sabia que acharia que estava me tapeando, se soubesse o quanto eu a amava, e acabaria recusando, 
por ter um senso de justia equivocado.
  Ele a acariciou, e Jenna suspirou de prazer. Marcus sorriu e beijou-a na boca.
- Alm disso... sabendo que voc nunca sentiria o que eu sentia, eu jamais abriria mo totalmente da minha independncia masculina.
- Machista - acusou Jenna, tentando no se entregar s sensaes excitantes que ele gerava com o toque.
- Feiticeira - rebateu Marcus, carinhoso, antes de beij-la novamente.

CAPTULO XII

O jardim da casa dos Crossan estava lotado de pessoas tomando champanhe .
  Abelhas faziam seu trabalho extraindo nctar dos hibiscos vermelhos e cor de laranja, e das pequenas flores cor-de-rosa dos arbustos nativos. Uma borboleta preta 
com manchas brancas e cor de laranja sobrevoou Jenna, sentada no velho banco de madeira que circundava a rvore centenria, com o beb que ela acabara de amamentar 
discretamente.
  O filho a fitava com olhos grandes e solenes, j to parecidos com os do pai em sua tonalidade cinza-escuro.
- Como est meu afilhado? - Dean aproximou-se com um copo numa mo e o brao ao redor de Callie.
- Ele est timo - respondeu Jenn. Olhou alm do casal, procurando avistar Marcus em meio  multido no ptio.
  Como se sentisse o olhar dela, ele se voltou e abandonou os dois convidados que entretinha. Num segundo, pousava a mo no ombro do irmo e sorria para Jenna e 
o beb.
- Esse rapazinho ainda no dormiu?
- Ele est interessado demais no que est acontecendo - respondeu Jenna.
  Callie inclinou-se e ofereceu o indicador. O recm-batizado Simon Marcus Crossan fechou a mozinha em torno do dedo e balbuciou.
Encantada, Callie olhou para o marido.
-        Quero um desses.
Dean sorriu.
  -        Tenho certeza de que podemos conseguir um. S temos de decidir se ser americano ou neozelands.
Callie torceu o nariz.
  -        Acho que neozelands est bem. - Ela e Dean haviam se casado nos Estados Unidos, mas concordaram em que ele deveria permanecer no emprego na Nova Zelndia 
por pelo menos de um ano. Findo esse prazo, se Callie ainda sentisse saudade de casa, iriam se transferir para os Estados Unidos.
  Katie aproximou-se do grupo de brao dado com Jason, exibindo o anel de noivado novo em folha.
  -        Como est meu afilhado? - Inconscientemente, ela repetira a frase do irmo.
Jenna riu. Simon bocejou e ento emitiu um berro feliz.
- Pronto para dormir - concluiu Jenna, e levantou-se. - Vou coloc-lo no bero.
- Eu vou tambm. - Marcus pousou o brao nos ombros da esposa e a acompanhou para dentro de casa.
  No andar superior, Jenna acomodou o beb no moiss e o embalou at adormecer.
  Marcus abraou-a por trs, e ambos admiraram o pequeno milagre que haviam criado.
- Nunca pensei que podia amar voc mais do que na noite de npcias, mas, quando deu  ltz o nosso beb, percebi que estava enganado. Nunca imaginei que um homem 
podia ter tanta sorte.
- Voc foi maravilhoso naquela noite - elogiou ela.
Ele a fez se voltar entre seus braos e fitou-a interrogativo.
-        Qual?
Jenna riu.
- Em ambas. Nas duas vezes em que foi forte quando precisei que fosse, terno quando importava. Carinhoso. Adoro o jeito como sempre cuidou de mim. E quero cuidar 
de voc tambm. De voc e de nossos filhos.
- Filhos... no plural? - provocou ele. - Um no basta, por enquanto?
- Por enquanto. Mas temos muito amor de sobra para mais filhos, no temos?
- Claro que temos. Temos tanto amor que no podemos confin-lo. Mais do que o bastante para uma famlia.
Ela fechou os braos em torno do pescoo do marido.
-        Eu te amo! - Sabia que no podia ficar repetindo isso sempre, mas gostava de pronunciar as palavras e ver o brilho que surgia nos olhos dele todas as vezes.
  - Tambm te amo - replicou Marcus, mas ela mal ouviu, pois j se beijavam.
  Marcus entregava a Jenna seu corao e sua alma num pedido mudo, como uma promessa para o futuro, enquanto o filho dormia serenamente ao lado deles, seguro com 
as sobras de amor dos pais.
  
  FIM
